quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"À Moi" e a origem do Amar

Antes do começo, uma explicação: "à moi" é uma expressão francesa ( lemos: à muá) que significa, dentre outras coisas, o "é meu"em português.

Foi durante um jantar de terça feira que me veio a inspiração para este post. Há quase um mês não via a pequena Naïs. Estávamos com saudades e brincamos muito antes de nos sentarmos à mesa. Convidada à escolher o seu lugar, sentou-se entre mim e o Alex, claro. Então, ela me deu um abraço apertado. Que delícia! Apontando para mim, ela disse à sua mãe:
_Maman, ça est à moi!

#Tecla sap#
_ Mamãe, isto é meu.
Sua mãe respondeu imediatamente:
_Não Naïs, a gente não fala assim. A Carol não é sua. Você quer dizer que você a ama muito, mas ela não é sua.

Pronto! Lindo! Entre as duas primeiras garfadas de um inocente jantar, Naïs expressa o dilema do amar: tratar ou não o outro como um objeto que me pertence.


A mesma Naïs que tem pouco mais de 2 anos e que já corrige a minha pronúncia. Ela que começa a diferenciar o que é ela e o que é o outro. Ela que testa seus limites e os limites do outro o tempo todo. Ela que agora quer fazer tudo sozinha. A mesma Naïs que, há um mês, parou de usar fraldas...

Com essa história de parar de usar fraldas ela controla o batalhão de adultos ao seu redor. Um dia estávamos entrando na piscina e ela me disse:

_Xixi, Carol, rápido, xixi!
Então corri com ela para o banheiro. Ela sentou-se e... Nada. Então, ordenou:
_Agora você!
E como já estávamos lá mesmo, querendo dar exemplo, não parei para pensar na situação e obedeci. E foi aí que escutei as suas palavras quase num tom de ameaça:
_Carol, o padrinho não é seu. O padrinho é meu!

Nesse dia, fiquei sem resposta. Perdi o início daquilo que pode se tornar eterno. Pensei apenas na atitude pensada dela de me tirar do meio das outras pessoas, me chamar no cantão, me colocar na cadeirinha do pensamento e me dar uma bronca...

Todavia, sua mãe não foi tão tapada quanto eu e, no jantar, disse algo que todos deveríamos saber, a primeira lição do amor: "amar não é possuir".


Naïs me fez pensar na origem do amor: um sentimento que se aflora quando vivemos a plenitude do egocentrismo. Sua mãe o nomeia amor, mas para a pequena, o sentimento é de posse. Então, quando mesmo que aprendemos a separar o amor da possessão?


Você pode se dizer diferente de Naïs. Dizer que você ama a sua liberdade e que respeita a liberdade do outro. Tudo bem! Você ama o outro, mas ele pertence ao Universo? Ótimo! Contudo, que mal tem se esse outro se sente livre e quer ficar feliz ao seu lado? É ou não é, Naïs?

Sei lá... Penso que se ela aprendesse agora essa primeira lição do amor, talvez economizasse muitas lágrimas durante a vida, dinheiro em terapias e os ouvidos e ombros dos amigos. Entretanto, aprendendo essa lição, ela deixaria também de compreender os livros de romance, os filmes de amor e muitos poemas. Não compreenderia nunca as músicas sertanejas, ou melhor, a maioria das músicas brasileiras. Que sangue correria em suas veias artísticas?


Aiai... Queria dizer aqui que eu consigo fazer a total separação entre o amor e a possessão, e dar o exemplo para vocês, mas não posso mentir... E olha que a Vida insiste em me ensinar essa lição. Entretanto, depois que essa professora severa se acalma... Confesso que adoro cantar bem alto e com os olhos fechados os refrões mais melosos que existem. Talvez, eu prefira continuar burra, bebendo muita água para as lágrimas, trabalhando e ganhando dinheiro para as terapias... E viva MEUS amigos!

6 comentários:

Alex disse...

A minha afilhada te ensinhou muitas coisas Carolina... Tem que passar mas tempo com ela :)

Unknown disse...

Carol,
Fiquei super emocionada com esse texto...e impressionada como você conseguiu expressar tão bem essa dicotomia amor x posse.
Um beijo,
Bárbara

Carol Saletti disse...

É Alex, aprendo muuuuiiito com ela, quase todos os dias...

Oi Bárbara, realmente é tão difícil separar um do outro... Admiro quem o consegue... Quem sabe um dia eu chego lá!?

Bjosssss

Dani Dani Ber disse...

amei querida, amei

Carol Saletti disse...

Que bom, Dani! bjo para vc!

Jan disse...

ok, já sei, não é possível possuir, tudo na terra pertence à humanidade inteira, ciumes é o inferno. Mas como eu faço para que o meu amor continue ser um desejo e nunca se torne uma necessidade ?

Outra pergunta : porque temos na cabeça essa ideia que uma relação, um amor, morre (quando um outro amor nasce, ou que não pode nascer se um outro existe, ou quando as pessoas não transam mais (só) juntas) ?

Terceira pergunta : se ha tanta ciumes no mundo, sera que tantas pessoas não acreditam quando ouvem "eu te amo", ou que muito pouca gente diz "eu te amo", ou que muitas disseram "eu te amo" sem o pensar e assim fica difícil para elas acreditar quando ouvem, ou que muitas pessoas querem outra coisa do que ser amadas ??

sim, já sei : estamos com ciumes quando não acreditamos que podemos ser amados para o que somos, inteiramente. Pois quem consegue acreditar totalmente nisso ?? quem diz "eu me amo assim, nao quero mudar nem uma coisinha"...

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