Bom, mas como disse, isso me deu uma noção básica, tão básica que o meu primeiro
contato telefônico com
madame Françoise, para lhe avisar que eu tinha perdido a minha conexão Paris-
Lyon, no desespero, foi feito em inglês.
E ela foi o meu primeiro impacto ao chegar em
Lyon. Meu primeiro lar foi a sua casa, o ninho de uma francesa que adora falar e que consegue falar umas 200 palavras por minuto sem respirar. Mas, quando você não está acostumada a escutar uma língua, você acha que tudo é uma palavra só. E é claro que eu ficava com cara de interrogação e que da minha boca só saia uma interjeição universal: Ã? Aí, ela recomeçava mais lentamente e logo acelerava de novo e eu, para finalizar meu sofrimento, acabava com aquele
sorrizinho de nada, fingindo que havia compreendido tudo. Início difícil!
O curso de francês da universidade me ajudou demais.

Também estudei muito em casa ao fazer 1.400 exercícios extras contidos nos livros "
Grammaire Progressive du Français", nível básico,
intermediário e avançado. Fora um curso de férias e de fonética.
Acham que eu estou craque no francês,
né? Melhorei
muuuuiiiito. A convivência diária com os nativos contribuíu imensamente com essa melhora, como disse, anteriormente, em um
outro post. Contudo, digamos que, até agora, eu tenha incorporado, de verdade, o básico da língua. Não estou exagerando e nem sendo muito exigente comigo mesma.
Vou explicar: depois de quase 8 meses e muito esforço, consigo compreender muito bem o que as pessoas falam, os filmes e, um pouco menos, as músicas. Digamos que meu ouvido tenha se acostumado com o francês. O que antes, para mim, era um bloco de sons transformou-se em palavras: nomes, verbos, advérbios, preposições,
gírias, expressões. O meu vocabulário ampliado mais o meu conhecimento a respeito das conjugações verbais, sintaxe e francês familiar formaram meus novos arquivos que me permitem compreender o que escuto. Ler textos e livros também se tornou muito mais fácil e
prazeiroso.
Entretanto, a compreensão oral e a leitura fazem parte de um processo de
aprendizagem passiva. É claro que eu faço um esforço mental para compreender, mas é como se os estímulos chegassem até mim e meu trabalho seria o de classificá-los e distribuí-los nos arquivos. Simples, não?

Já escrever e falar fazem parte de um processo
ativo. Para ser bem sucedida em expressar qualquer
idéia, eu preciso
acessar os meus novos arquivos, cruzar as informações para escolher as melhores palavras, a melhor
concordância nominal e verbal dentro da sintaxe da frase. A tudo isso, na escrita, acrescento o cuidado com a ortografia e na fala, com a
pronúcia, inclusive faço biquinho e pronuncio sons que não somos habituados no português. Aí, sai de mim a
idéia a ser expressada. Um parto!
Na minha auto avaliação, hoje consigo me expressar muito bem quando falo utilizando o presente ou o futuro. Gerúndio, infinitivo, pretérito do indicativo, discurso
indireto?
Ok. Utilizar as formas do passado está cada dia mais fácil, mas ainda faço esforço para acertar as
concordâncias verbais. Mas agora, as preposições, o
gênero das palavras, o tal do subjuntivo e as hipóteses são as pedras no meu sapato. Quando vou escrever em francês, ainda tenho mais tempo para
refletir, mas quando estou falando, sou capaz de quebrar totalmente o
rítmo de uma conversa e começar a fazer perguntas de gramática. É duro, conversar comigo! Eu sei. Haja paciência!

Hoje falo francês, mas é como se eu ainda utilizasse os trilhos do português. Isso dificulta a minha fluência. Sei também que a minha vontade de falar
corretamente recrimina meus erros que recriminam a minha fala. Já me aconselharam a falar de uma maneira mais simples ou a pensar em francês. Que
ótimo! Eu até que tento, mas isso, ainda, não é uma questão de escolha.
Uma
vozinha dentro de mim me consola:
"Calma, Carolina, isso tudo vai melhorar!" A partir do momento em que meus novos arquivos forem deixando de ser novos e passarem a ser mais usados, vou incorporar a língua francesa e todo o esforço que faço hoje será coisa do passado, mas fica aqui o seu registro.
Por que toda essa reflexão e esse desespero em aprender francês? Porque estudar francês era a minha primeira etapa aqui em
Lyon. Tempo esgotado! Acabou a mamata! Segunda-feira, dia 6 de
setembro, inicio a segunda etapa: começam minhas aulas de mestrado em Psicologia Cognitiva e volto a trabalhar, tudo isso em francês! Mas esses são outros assuntos...
(Leia também no blog: Aprendendo a Língua Francesa)