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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Sumida, eu?

Que nada... Estou ou dando aula, ou estudando na biblioteca ou em casa com esta linda paisagem na minha frente. Vivo um momento de estudo e escrita. Guardo minha inpiração prá dissertação.


Se eu demorar prá responder os comentários, vocês já sabem o porquê.
Não escrevo mais prá não gastar...
bjs

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mestrado na França: loucura ou não?

Se foi loucura ou não pensar em sair da minha vida estabelecida no Brasil e vir fazer um mestrado na França, isso eu ainda não sei. Só sei que eu pensei seriamente nesta mudança de vida numa manhã de setembro e vim morar aqui três meses e meio depois. Três meses e meio para fechar vários ciclos no Brasil e me preparar para o desconhecido na França.

Concordo em colocar um certo grau de loucura nessa atitude quando lembro que eu cheguei aqui em pleno inverno de janeiro me comunicando praticamente em inglês, sem conhecer nada nem ninguém.

O objetivo deste ato insano seria fazer um mestrado que começaria em setembro. Logo, eu teria 7 meses para aprender a língua francesa, porque aqui, os cursos são em francês e os estudantes estrangeiros normalmente têm que fazer uma prova para comprovar um nível intermediário da língua. ( Não fiz essa prova pois meu curso de francês foi na própria Universidade).

Em junho de 2010, me inscrevi no primeiro ano de mestrado (Master 1) de Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia. Vocês podem até achar que não, mas a seleção é relativamente simples quando se trata de qualquer Licença (em qualquer curso) ou do primeiro ano de Mestrado. Para eu ser aceita, bastou fornecer minhas notas do vestibular (este é considerado como o equivalente ao baccalauréat, que é uma prova que eles fazem antes de entrar para a Universidade), meus diplomas (graduação e pós-graduação) e seus respectivos históricos de notas (claro que tudo traduzido por um tradutor juramentado), uma carta de intenção e um formulário preenchido.

A Universidade onde eu queria fazer o Mestrado é pública, sendo assim, se tem vaga e se você tem estudos considerados "equivalentes", em tempo e assunto, você é aceito. É mais difícil você entrar no primeiro ano de um curso de qualquer Licença do que no último ano ou no primeiro ano de mestrado. Isso porque as Universidades reservam as vagas dos primeiros anos para os alunos que estudaram nas escolas da região. Os primeiros anos são lotados e os últimos têm vagas por causa da evasão universitária.

Já no segundo ano de Mestrado, tudo muda. De repente, pela primeira vez na vida de um estudante francês, aparece um funil e bem estreito. Para vocês terem noção, há cursos de M2 em que são oferecidos apenas 30% do número de vagas do M1. Além disso, o aluno deve escolher se ele quer um "Master Pro" (mestrado profissionalizante) ou "Master Recherche" (mestrado de pesquisa - que é o equivalente ao mestrado no Brasil). No caso da psicologia, somente com um Master Pro que o aluno receberá o título de psicólogo e que poderá atuar no campo de trabalho. Com um Master Recherche, ele faz sua pesquisa, se prepara para o Doutorado e sua vida profissional acadêmica.

Vocês podem se perguntar:
1) E se o aluno quiser somente fazer a licença? Vai trabalhar em certos empregos que a exigência é somente no nível de licença, mas não vai ser psicólogo.
2) E o que acontece quando um aluno de psicologia que estudou seus anos de licença, fez seu primeiro ano de mestrado e não consegue passar pelo funil e ser aceito no M2? Ele pode repetir o M1 até conseguir entrar no M2 (aumentando suas notas e fazendo cada vez mais estágios), ou fazer como grande parte dos estudantes: desistir e "ir trabalhar no McDonald's", como brincavam meus colegas...

Não... O ambiente do primeiro ano de mestrado realmente não é engraçado e nem justo. A concorrência é presente e explicitada pelos alunos e professores desde o primeiro dia de aula. A seleção para o segundo ano será feita a partir das notas do master 1 (ou notas de cursos equivalentes de outros países), de um projeto de estágio (master pro) ou de pesquisa (master recherche), carta de intenção, currículum vitae, formulário preenchido (ao todo, 20 páginas escritas por você!!!). Além disso, você tem que encontrar um professor que se simpatize com seu projeto e queira te orientar.

Como eu já sou psicóloga, meu único interesse era fazer o Master 2 Recherche. Tomei conhecimento da existência desse tal de funil somente quando estava bem na frente dele. Mas, ao mesmo tempo, fiquei sabendo que meu curso de Psicologia do Brasil e minha pós-graduação em Psicomotricidade serviriam como meus equivalentes de M1, e é claro que minhas notas no Brasil, em português, eram melhores do que minhas notas de M1. Então, ao postular para o Master 2, entrei com meus diplomas e históricos brasileiros, UFA! Por outro lado, estava meio apreensiva porque queira fazer não mais o master 2 em Psicologia Cognitiva e sim, em Psicologia da Saúde e do Desenvolvimento, ou seja, departamento novo, tudo novo, de novo!

Fiquei três meses estudando muito, desenvolvendo e escrevendo um projeto de pesquisa que unisse a psicologia do desenvolvimento, a dança e a educação. Ralei muito e todo o meu esforço valeu à pena! Mas sei que o trabalho que tive foi pouco em comparação com o trabalho que terei nos meus próximos meses...


Loucura ou não, Master 2, aqui estou!!! E se você quer saber qual é L'influence de la Composition Chorégraphique Collective sur le processus de décentration chez des filles de 7 a 11 ans, ou melhor, a Influêncida da Composição Coreográfica Coletiva no processo de descentração de meninas de 7 a 11 anos, aguarde os resultados da minha pesquisa!


quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Fale comigo, fale com a gente!

Oi Gente!!!

Este post é um espaço de troca entre aqueles que têm algumas dúvidas sobre temas, tais como, morar na França (Onde? Como? Quanto? Titre de séjour?) ou estudar na França (onde? Como? Quanto? O quê? Papelada? Burocracia?), estudar francês na França (Onde? Como? Quanto? Vale à pena?) e aqueles que têm dicas para dar, como eu ou você.

Tenho recebido muitos e-mails com essas dúvidas. Só que várias pessoas pedem as mesmas dicas e eu acabo tendo que escrever respostas parecidas sobre os mesmos assuntos. E quando estou cheia de atividades, as pessoas ficam um tempão sem resposta... eu sei... Mas também, como vocês podem ler nos outros tantos posts, não estou por conta do blog, né! Quando tenho tempo, escrevo dando notícias, dicas, contando causos, fazendo reflexões, com o maior prazer! Contudo, há aqueles que não entendem isso e que acham que sou serviço público de informações. Não sou! Ajudo na medida do meu possível! E que isso fique bem claro, principalmente para aqueles que me mandam e-mails e têm dificuldades em escrever "por favor" e "obrigado".



Participe você também e me ajude nesta construção!

Este agora é o nosso espaço oficial de troca!!! ;-)


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Estudar Francês na França: resposta à C.M.

Este post é uma resposta que escrevo à um e-mail de uma leitora que me pediu algumas dicas para sua filha que quer vir estudar francês em Lyon. Como tenho recebido outros e-mails semelhantes, resolvi deixar este registrado aqui, pois pode esclarecer dúvidas de outras pessoas.

C.M.,
Acho que a
idéia da sua filha morar aqui durante 6 meses para estudar francês é ótima! Porque na verdade, formar meio ano, ou mesmo um ano mais tarde não faz diferença nenhuma na vida de uma pessoa, ?! Mas a experiência de morar fora de seu país, conhecer uma nova cultura, falar uma outra língua, conhecer pessoas do mundo inteiro, isso sim faz diferença. aqui prá estudar, mas o mestrado é uma pequena parte de tudo o que eu estou aprendendo. O conhecimento de mundo que estou adquirindo e, principalmente, o conhecimento sobre mim mesma, são bem maiores e super valiosos.

Quanto à escolha da cidade de Lyon, sou suspeita para falar porque adoro morar aqui. É uma cidade grande, com toda a infra-estrutura necessária, mas ela é pequena o suficiente para você encontrar com seus conhecidos na feira, no metrô ou mesmo para você, na primavera, trocar o transporte público por uma bicicleta.

Questões práticas:
Qualquer brasileiro tem o direito de ficar na França por 3 meses sem visto, estudando ou como turista mesmo. Mais do que isso, é necessário um visto. E como já disse
aqui, nós só conseguimos o visto se estamos inscritos em um curso de 20 horas semanais. Você não me falou se sua filha fala francês ou não, mas na minha experiência, à partir do 4º mês que me deu um 'clic' e que eu comecei a compreender melhor e a conseguir me expressar.

Quando cheguei, estudei na
Université Lyon II, no departamento chamado CIEF. Foi um curso muito bom que eu aconselho, mesmo porque, quando você faz o curso dentro da universidade, parece que você está fazendo um curso universitário e você tem os mesmos direitos dos outros alunos, como os almoços no restaurante Universitário por 3 euros (entrada, prato e sobremesa), fazer esporte por 10 euros por ano (mais de 20 opções de cursos), assistência médica (4 euros pagos na taxa de inscrição). Além disso, você pode se aventurar a seguir alguma aula de seu interesse em um outro curso, utilizar a biblioteca e conhecer gente do mundo todo.

Entretanto, o curso da Universidade segue o ano
letivo, que aqui começa em setembro e termina no início de junho (as inscrições acabam no final de maio!!!). Ele é dividido em dois semestres: o primeiro de setembro à janeiro e o segundo de fevereiro à junho.

Como sua filha vai chegar aqui em
agosto, se ela não quiser ficar um mês de férias ( e prá te falar a verdade, o mês de agosto é um mês que todo mundo viaja e que Lyon fica super vazia), o melhor é ela se inscrever por um mês em uma escola de idiomas, como na Alliance Française. Lá os cursos são mensais e ela ainda pode fazer cursos extras de gramática ou de fonética, por exemplo. Assim, ela já começa a se enturmar, a conhecer a cidade e pode aproveitar os passeios turísticos proporcionados pela escola nos finais de semana.

Segue alguns preços prá vc ter idéia de algumas despesas:
• Curso de Francês:
- Université Lyon II, 4 meses
Cours Intensifs - 280 h - 1700 €
Cours Semi-intensifs - 210 h - 1020 €
-Alliance Française, 3 meses
Cours Intensifs - 280 h - 1706 €
Cours Semi-intensifs - 210 h - 1148€

• Alojamento:
- Residência Universitária Pública (CROUS) : à partir de 165 € por um quarto de 9m2
- Setor Privado (chambre ou studio) : entre 200 et 550 € par mois

• Alimentação
:
- 1 refeição no Restaurante Universitário : 3,00 €
- 1 sandwiche à la cafétéria universitaire : à partir de 1,80 €
- 1 refeição em restaurante da cidade : à partir de 9,00 €
- 1
baguette de pão : 0,80 € em média

• Transporte:
- Carta de transporte (TCL) tarifa estudante: menos de 26 anos = 25,60 € por mês, mais de 26 anos = 52,00 €
- 10 tickets (tarif étudiant) 12,20 €

Espero ter tirado algumas dúvidas, mas se tiver mais questões, não hesite em me escrever!

Bon courage!

Carol

Algum outro leitor quer mais dicas sobre morar ou estudar na França? Então clique AQUI e "fale comigo, fale com a gente!".

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Pequenas Delícias de um Dia Qualquer


Confesso: matei aula prá ir ao cinema! O sol brilhando lá do lado de fora, o céu super azul e eu dentro de uma sala construída para o inverno de temperaturas a baixo de zero, mas que se transforma em uma sauna numa primavera de 25 graus...

Meu professor dando uma aula super monótona de 3 horas e meia sobre "A Atenção". Falando nisso, não consegui prestar atenção no que ele falava (e ele também não, senão teria dado uma aula mais dinâmica). Eu olhei para o relógio, 2:10h. Depois de mais de meia hora, 2:17h. Nossa! Que vontade de dar um grito e sair correndo!

O que eu estava mesmo fazendo dentro daquela sala assistindo a uma aula-conferência? Ah! Aula de mestrado. Mes-tra-do, Carolina, concentre-se! Você está aqui prá isso, lembra?

Ah! É. Mas minha semana está muito atípica com a estréia do espetáculo de dança no qual eu danço, mesmo com minhas novas muletas, fruto de uma entorse no sábado. Contudo, nem a entorse, nem as muletas foram capazes de me parar. Estou tão contente por ter voltado a dançar que no domingo à noite propus à minha professora adaptar minha participação. Como disse antes, ela fala a minha língua e adorou a idéia. Então, estreiei ontem de muleta e feliz!

Voltando ao mestrado e às aulas conferências, aqui na França isso é muito comum. Deparei-me muito mais com professores conferencistas do que com professores educadores. Os conferencistas são aqueles que detém o saber e que expõem seus preciosos conhecimentos e ponto. Nada de relação, nada troca. Pouco importa se o aluno está com a atenção lá ou não.

Isso foi um choque para mim quando minhas aulas começaram. Eu estava acostumada com professores educaDORes, aqueles que partem da dor de um não saber e a transformam em fome de conhecimento. Estava acostumada com relação dentro da sala de aula, com a possibilidade de me identificar com a pessoa, com o profissional, com a sua paixão pelo novo saber.

Por ter estudado muitas teorias sobre educação de origem francesa, achava que fazer parte da Universidade aqui seria como beber água diretamente da fonte. Enganei-me. Como já disse, a teoria mora muito longe da prática. Nesta prática, assisto aulas-conferências, com professores especialistas nas funções cerebrais, mas que mesmo com todo os seus conhecimentos sobre como potencializar os processos de aprendizagem, são capazes de dar aula todo dia na mesma posição, mesmo tom de voz, mesmo tipo apresentação de power point, mesma roupa... Meu cérebro não consegue diferenciar os dias diferentes de aula.

Hoje, eu olhava para os lados, a sala cada dia mais vazia. (Esse esquemão da Universidade é uma espécie camuflada e injusta de seleção natural). Procurei um olhar, um sorriso, alguém que compartilhasse do meu tédio. Encontrei! Risos de cumplicidade. Mas meus outros colegas estavam super concentrados olhando para o professor e fazendo cara de que estavam entendendo tudo. Digitavam sem parar e super rapidamente em seus computadores. Nossa! Prá que tudo isso? Uns verdadeiros robôs!!! É que eles estão acostumados. Para eles, aula é isso desde todo o sempre. Mas prá mim não. O que me resta é meu caderninho e meus desenhos floridos: e viva a Primavera!

Tem dias que a gente tem que admitir que não dá prá assistir aula, pegar a muleta, dizer "au revoir" e sair. Rue de la République é uma rua daqui de Lyon feita para pedestres. Ela é super charmosa, cheia de lojas, cafés e restaurantes. Com o dia maravilhoso, ela estava lotada de gente. Adoro gente! E que gostoso sentir o sol na minha pele e o vento mais quente atrapalhando meu cabelo. (Tchau, inverno!). É nessa rua que fica meu cinema preferido e é prá lá que eu fui! Cineminha e pipoca no meio da tarde... hummm... não tem preço! Pequenas delícias de um dia qualquer...

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Sistema de Ensino Francês: verdades para quem quer ler e enxergar


Sobre meus óculos, a "Alegoria da Caverna" e o Sistema de Ensino na França:



Há um mês uso óculos. "Astigmatismo" foi o diagnóstico que o médico deu para o meu enxergar meio embaçado, sem foco preciso, segundo ele. Leitura Corporal à parte, o fato é que não percebia que estava com algum problema. Só fui convencida dele quando coloquei meus óculos pela primeira vez. A sensação que tive foi que a imagem ao meu redor de 4 megapixels tinha passado para 18. Tudo tem um contorno definido! O mundo ficou mais nítido! Adaptei-me instantaneamente às minhas novas lentes.

Mais focada e aqui em Lyon, preparei-me para a minha semana intensa de provas. Muita matéria, leituras, exercícios... Nada em português. Quando a tão "esperada e temida" semana dos alunos chegou, em um dia, tivemos 3 provas dissertativas, com um intervalo de 10 minutos entre elas: uma às 8hs, outra às 10hs e a última às 12 horas! Meu cérebro conseguiu descansar só 3 dias depois...

Minha fase de enamoramento com a França e seu Sistema de Ensino acabou aqui! Não é nada grave, nada que me faça mudar de planos. É simplesmente o efeito dos meus óculos e da nova capacidade de enxergar o mundo mais nitidamente.

Tudo isso me faz lembrar do texto da "Alegoria da Caverna", onde Platão, o filósofo e autor, nos faz imaginar uma situação na qual seres humanos, que nasceram dentro de uma caverna, lá viviam suas vidas acorrentados. Eles, sempre de costas para a abertura da caverna, só enxergavam as sombras das pessoas que viviam do lado de fora, assim como, escutando as suas vozes, pensavam que eram os sons produzidos pelas mesmas. Para esses seres humanos de Platão, a realidade era a sombra. Ele pede para seu leitor imaginar o que aconteceria se um deles se libertasse das correntes e fosse para o exterior da caverna, ao encontro da luz. Ele veria a real realidade. Quais riscos ele correria se resolvesse voltar para dentro da caverna e dissesse para seus companheiros que aquela realidade das sombras não era a verdadeira? Seria ignorado? Tido como mentiroso? Louco? Seria perseguido e morto? - É o tipo de texto que nos ajuda a refletir diante de muitas situações da nossa vida...

Não sei como vou explicar isso à vocês, mas, infelizmente, acho que a Universidade francesa enxerga sombras e jura que é a única realidade possível. Minha angústia a esse respeito cresce não só porque agora sou uma estudante desse Sistema, mas, principalmente, porque sou uma estudante de mestrado em Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia. Estudo o cérebro a fundo, as funções cerebrais, tim-tim por tim-tim. Estudo às disfunções, doenças, demências. Mas o que me deixa muito feliz é estudar as funções cerebrais no enfoque da aprendizagem e de sua potencialização.

Dentro dos laboratórios da Universidade, quando vamos fazer uma pesquisa, procuramos identificar os fatores que podem alterar o resultado e, na medida do possível, controlá-los. A Universidade aqui de Lyon é uma referência mundial em pesquisas nesta área. Estuda-se muito sobre a memória, as bases dos processos de aprendizagem e, consequentemente, do processo de educação. Muitas das teorias que estudamos no Brasil saem daqui, quentinhas, diretamente do forno.

Entretanto, a França, muitas vezes considerada o país das incongruências, faz jus à sua fama e peca ao deixar as teorias dentro dos livros e bem longe da prática. Porque eu pergunto: alguém tem dúvida que a minha capacidade cognitiva durante a terceira prova estaria prejudicada? E a capacidade do aluno que foi mal na primeira prova e que teve 10 minutos para respirar antes de começar a segunda? Isso sem pensar na terceira, quando eu já estava até vesga. E quem estava com vontade de ir no banheiro?

Nas provas dissertativas não é só o conteúdo que é avaliado, mas também a maneira como você consegue fazer uma ligação entre fatos, causas e efeitos, a maneira como expressa suas idéias, considerando inclusive o domínio da língua escrita. Alguém duvida que uma estudante estrangeira que estuda francês há um ano poderia ter mais dificuldades para desenvolver suas idéias? Nada dessa breve análise superficial é levado em consideração, nem mesmo por meus professores, grandes experts nesses assuntos...

O exemplo da minhas 3 provas durante uma manhã é um dentre váaaaaarios que poderia citar e é por isso que considero a França como o país da gastronomia "do conhecimento sobre educação". A "cozinha" é a Universidade, mais especificamente os departamentos envolvidos nas pesquisas das Ciências Cognitivas. Comidas saborosas, nutritivas e novas receitas saem daqui. O problema todo é que grande parte da nação e meus professores vivem de regime! Não aproveitam aquilo que produzem. Êta desperdício!

E se eu questiono, reclamo e digo a meus colegas ou professores que há uma realidade diferente das sombras, uma realidade onde a flexibilidade e a criatividade e o contato humano são essenciais, poucos são aqueles que acreditam nessa luz. Da maioria, recebo sorrisos amarelos bem amarelos. É o lado ruim de se ter uma longa história onde as pessoas se acorrentam em tradições inúteis.

Há mais ou menos 2 anos, houve uma greve de professores aqui, de pessoas que enxergavam o que eu estou enxergando só agora, mas que foram vencidos por seus colegas e alguns governantes, acomodados demais para querer ter o trabalho de mudar. Ainda bem que esses primeiros existem. Que eles não desistam da necessária mudança! Ainda tenho esperança!

A verdade é que me decepcionei, mas só na minha cabeça é que algum dia existiu uma França "ideal", ou na sua também? Na "real", estou aqui para estudar, então, estudo e muito! É meu foco. Aqui tem comida boa, tenho fome e vou me nutrir. Agora, se tem gente que quer viver de regime ou de baguette...


sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Primeiros Momentos: emoções à flor da pele

Esta foi a minha primeira semana de aula de verdade na Universidade. Até então, tinha tido somente reuniões de apresentação do curso, professores e matérias. Pude perceber que o curso será muito bom. Sofrido, mas vou aprender muito. Professores chiquérrimos, informatizados, com as aulas afiadas na ponta da língua. Compartilho com vocês alguns dos meus primeiros momentos, não muito glamurosos, como mestranda na França:

A semana começou com uma aula de Metodologia da Pesquisa. Desculpem-me os profissionais que lecionam esta matéria, mas é difícil curtir esta aula. Ela é, no mínimo, entediante. Isso em português! Em francês, não consigo nem definir. Então, no final da aula, depois de muito falar, o professor resolveu fazer uma pequena avaliação para saber o nível da turma. De um lado da folha, perguntas sobre os termos técnicos utilizados em uma pesquisa, do outro, exercícios de estatísticas. Bom, entreguei minha avaliação rindo, de nervoso. O primeiro lado, deixei em branco porque nem em português saberia responder e o outro, também, porque estudei estatística há mais de 10 anos atrás e fiz questão de esquecer tudo no dia seguinte da prova final. Mas sabia que já tinha visto aquelas grades cheias de números e letras em algum lugar...


Aula de Modelização e Simulação dos Processos Cognitivos: uma professora que fala super rápido e que dá aula sem olhar muito para a reação dos alunos. Tema da aula: Inteligência Artificial. Para fazer a introdução, ela começa do básico, fazendo uma rápida 'revisão' do funcionamento do neurônio artificial e depois passa alguns exercícios para a gente calcular o tempo de reação de um neurônio não-sei-o-quê dando os valores das variáveis... Opa! Espera aí! Inteligência Artificial? Neurônio Artificial? Ah! A turma deu a resposta em um coro. Ri, de nervoso. Então ela anuncia a importância disso tudo para a nossa aula de Informática "que será quando colocaremos em prática esses conhecimentos ao fazermos nossas programações". Programação, informática, eu? Tá bom! Ri.

O professor de Envelhecimento é a simpatia em pessoa. Diz que, nas suas aulas, os alunos trabalham muito. Então cada um terá que apresentar um tema e relacioná-los aos artigos que ele selecionou (textos em francês, inglês e, para quem quiser, em alemão, por que não?). Ele nos disse os dias das suas aulas e explicou que cada aluno teria 20 minutos para fazer a sua exposição. Pediu voluntários para o primeiro dia. Todos meus colegas olharam para baixo. Ele encontrou o meu olhar e interpretou meus olhos arregalados como os de uma pessoa muito empolgada e disse:
#tecla sap#
_ Você, mademoiselle, apresentará no primeiro dia!
_ Eu? No primeiro dia? - Pânico total!!! Continuei, rindo: Só se for em português!

É claro que ele disse que não, que ninguém me entenderia e tentou me encorajar, mas preferi gastar o meu francês convencendo-o a escrever meu nome no último dia de aula. Ufa!

Para terminar a primeira semana, aula de Psicologia Cognitiva! A professora cheia de energia passou seu verão preparando as aulas e treinando para dar o máximo de conteúdo em 1h e 45minutos. Ela fez um resumão sobre tudo o que eu já estudei de neurologia em toda a minha vida. Terminou sua conferência relacionando tudo isso à memória, à aprendizagem e ao sono.

Ela disse que se quisermos potencializar a nossa capacidade de aprendizagem deveremos dar preferência à repetição de um mesmo estímulo, mais do que a exposição a muitos estímulos ao mesmo tempo. Além disso, temos que dormir, pois o sono profundo é o melhor amigo da memória e da aprendizagem...

Confesso que a minha primeira semana me causou um certo pânico. Tive outras matérias em que tudo correu super bem, mas esses outros momentos... Escuto novamente aquela vozinha sábia que me acompanha nas horas difíceis e que me pede c-a-l-m-a. Tudo bem, não vou me desesperar, pelo menos na primeira semana. Contudo, além de calma, tenho que colocar em prática os ensinamentos acima de minha professora e o problema é que tenho vivido exatamente o oposto: muuuuuitos estímulos novos na universidade, muuuuita biennale de la danse, mudança de casa, tpm e um pernilongo fdp que mora aqui no quarto e que pertuba o meu sono!!! Êta se eu acho esse inseto...

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

De Mim para Mim mesma

Qual foi a última vez que você se colocou em primeiro plano na sua própria vida? Qual foi a última vez que você criou metas para você mesmo? Qual foi a última vez que você quis algo que parecia impossível, se olhou no espelho e disse: "Eu quero! Eu posso! Eu mereço! Eu vou!"?

Há um ano atrás eu fiz isso. Permiti-me sonhar e corri atrás do meu sonho sem saber ao certo para onde ele me levaria.

Então, hoje, eu estava sentada em um auditório, no meio de uns 200 estudantes, escutando as boas vindas, em francês, do coordenador do mestrado da Universidade de Lyon. Consegui enxergar a cena em que eu participava. Olhei para tudo bem forte, para deixar esse momento registrado na minha memória. Fui a única testemunha da minha felicidade, do meu sorriso, da minha satisfação de realizar dois sonhos: 1-aprender francês (sempre achei lindo e chiquérrimo!) e 2-fazer um mestrado. Tudo bem! Disse no último post que ainda não sou uma 'expert', mas, voilà, entendi quase tudo. Sei também que estou falando sobre o primeiro dia de dois longos anos da minha vida... Mas tudo começa de um começo. É ou não é?

Quando falo dois L-O-N-G-O-S A-N-O-S, curto cada letra, porque quero viver intensamente cada momento. Permiti-me voltar a ser estudante, mas agora, mais madura e mais esperta do que quando o fui há uma década atrás.

Tudo o que eu não aproveitei no meu tempo de faculdade, quero aproveitar. Hoje fiz visita guiada pelo Campus, visita guiada pela biblioteca. Interei-me de todos os serviços oferecidos na "casa do estudante". Tinha direito a uma agenda? Quero uma agenda, obrigada! Direito a um chaveiro? Quero, merci! Camisinha com a logomarca da Universidade? Rsrsrs! Quero também! Então, quer se inscrever para fazer parte de um grupo de estudantes que vão a museus, teatros e espetáculos de dança juntos? Claro que eu quero! Pode colocar meu nome aí, s'il te plaît! Confesso que me diverti como uma criança conhecendo a sua nova escola...


Tem um ditado que diz que "a qualidade da sua vida depende da qualidade dos seus objetivos". Penso nisso frequentemente.

Hoje estou me sentindo mais leve, mais plena. Estou feliz comigo mesma. Feliz por estar cuidando de mim, feliz por ter me dado esse presente: meu Presente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Aprendendo a Língua Francesa II: dificuldades mais complexas

Agora já faz quase 8 meses que atravessei o Atlântico para morar aqui, em Lyon, França. Diferenças culturais à parte, meu grande desafio até então era a aprendizagem da língua francesa. Cheguei aqui com uma noção de francês. Em abril do ano passado, comecei a estudar sozinha quando ganhei o livro com cd da Folha de São Paulo (15 minutos de Francês). Depois, de agosto a novembro fiz aulas particulares e, em dezembro, um curso intensivo da Aliança Francesa.

Bom, mas como disse, isso me deu uma noção básica, tão básica que o meu primeiro contato telefônico com madame Françoise, para lhe avisar que eu tinha perdido a minha conexão Paris-Lyon, no desespero, foi feito em inglês.

E ela foi o meu primeiro impacto ao chegar em Lyon. Meu primeiro lar foi a sua casa, o ninho de uma francesa que adora falar e que consegue falar umas 200 palavras por minuto sem respirar. Mas, quando você não está acostumada a escutar uma língua, você acha que tudo é uma palavra só. E é claro que eu ficava com cara de interrogação e que da minha boca só saia uma interjeição universal: Ã? Aí, ela recomeçava mais lentamente e logo acelerava de novo e eu, para finalizar meu sofrimento, acabava com aquele sorrizinho de nada, fingindo que havia compreendido tudo. Início difícil!

O curso de francês da universidade me ajudou demais. Também estudei muito em casa ao fazer 1.400 exercícios extras contidos nos livros "Grammaire Progressive du Français", nível básico, intermediário e avançado. Fora um curso de férias e de fonética.

Acham que eu estou craque no francês, ? Melhorei muuuuiiiito. A convivência diária com os nativos contribuíu imensamente com essa melhora, como disse, anteriormente, em um outro post. Contudo, digamos que, até agora, eu tenha incorporado, de verdade, o básico da língua. Não estou exagerando e nem sendo muito exigente comigo mesma.

Vou explicar: depois de quase 8 meses e muito esforço, consigo compreender muito bem o que as pessoas falam, os filmes e, um pouco menos, as músicas. Digamos que meu ouvido tenha se acostumado com o francês. O que antes, para mim, era um bloco de sons transformou-se em palavras: nomes, verbos, advérbios, preposições, gírias, expressões. O meu vocabulário ampliado mais o meu conhecimento a respeito das conjugações verbais, sintaxe e francês familiar formaram meus novos arquivos que me permitem compreender o que escuto. Ler textos e livros também se tornou muito mais fácil e prazeiroso.

Entretanto, a compreensão oral e a leitura fazem parte de um processo de aprendizagem passiva. É claro que eu faço um esforço mental para compreender, mas é como se os estímulos chegassem até mim e meu trabalho seria o de classificá-los e distribuí-los nos arquivos. Simples, não?


Já escrever e falar fazem parte de um processo ativo. Para ser bem sucedida em expressar qualquer idéia, eu preciso acessar os meus novos arquivos, cruzar as informações para escolher as melhores palavras, a melhor concordância nominal e verbal dentro da sintaxe da frase. A tudo isso, na escrita, acrescento o cuidado com a ortografia e na fala, com a pronúcia, inclusive faço biquinho e pronuncio sons que não somos habituados no português. Aí, sai de mim a idéia a ser expressada. Um parto!

Na minha auto avaliação, hoje consigo me expressar muito bem quando falo utilizando o presente ou o futuro. Gerúndio, infinitivo, pretérito do indicativo, discurso indireto? Ok. Utilizar as formas do passado está cada dia mais fácil, mas ainda faço esforço para acertar as concordâncias verbais. Mas agora, as preposições, o gênero das palavras, o tal do subjuntivo e as hipóteses são as pedras no meu sapato. Quando vou escrever em francês, ainda tenho mais tempo para refletir, mas quando estou falando, sou capaz de quebrar totalmente o rítmo de uma conversa e começar a fazer perguntas de gramática. É duro, conversar comigo! Eu sei. Haja paciência!

Hoje falo francês, mas é como se eu ainda utilizasse os trilhos do português. Isso dificulta a minha fluência. Sei também que a minha vontade de falar corretamente recrimina meus erros que recriminam a minha fala. Já me aconselharam a falar de uma maneira mais simples ou a pensar em francês. Que ótimo! Eu até que tento, mas isso, ainda, não é uma questão de escolha.

Uma vozinha dentro de mim me consola: "Calma, Carolina, isso tudo vai melhorar!" A partir do momento em que meus novos arquivos forem deixando de ser novos e passarem a ser mais usados, vou incorporar a língua francesa e todo o esforço que faço hoje será coisa do passado, mas fica aqui o seu registro.

Por que toda essa reflexão e esse desespero em aprender francês? Porque estudar francês era a minha primeira etapa aqui em Lyon. Tempo esgotado! Acabou a mamata! Segunda-feira, dia 6 de setembro, inicio a segunda etapa: começam minhas aulas de mestrado em Psicologia Cognitiva e volto a trabalhar, tudo isso em francês! Mas esses são outros assuntos...

(Leia também no blog: Aprendendo a Língua Francesa)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O Sistema de Ensino na França


A França é reconhecida pela sua competência quando o assunto é educação. Acredito que esta fama de "inteligente" foi conseguida à partir do séc XVIII, o Século das Luzes. Nessa época, os pensadores iluministas acreditavam que os seres humanos podiam tornar o mundo melhor mediante introspecção, livre exercício das capacidades humanas e engajamento político social. Isso tudo para fazer frente aos resíduos de tirania e superstição creditados ao legado da Idade Média. Com a ajuda posterior vinda dos pensadores humanistas, que também enfatizavam a importância do Homem e da racionalidade, a noção de Escola e a maneira de educar foram totalmente repensadas e reestruturadas. Nasce, na França, a consciência da importância de um sistema de ensino eficaz que tenha como objetivo o desenvolvimento das capacidades intelectuais dos alunos.

Não foi por acaso que escolhi esse destino para continuar meus estudos. Sempre tive a curiosidade em saber quais as diferenças entre a educação francesa e a brasileira. Quais são os prós e os contras? O que temos para aprender com eles? O que temos a ensinar? Como eles enxergam e tratam os alunos? Como é a preparação de um professor? O que eles sabem que não sabemos? O que eles fazem que não fazemos? E tudo isso relacionado ao ensino de dança para crianças?

Infelizmente, ainda não tenho todas essas respostas, mas aprendi como funciona o sistema escolar francês:

O ano letivo começa em setembro e termina em junho. As férias são divididas durante o ano: uma semana no fim de outubro, duas semanas para o Natal, uma semana em fevereiro (férias de inverno), duas semanas de férias na primavera e dois meses para as férias de verão! Faça as contas... bom demais!

Aqui, a escola é gratuita e laica dos seis anos, quando ela começa a ser obrigatória, até o pós doutorado ou até onde sua fome te levar. Ela deixa de ser obrigatória aos 16 anos. Normalmente, os pais colocam os filhos na escola maternal aos 3 anos, mas aí, têm que pagar. E pagam também se querem que seus filhos recebam uma educação religiosa, encontrada somente nas escolas privadas. Fora isso, durante toda a vida escolar pagam as taxas de inscrição anual. A mais cara é a do doutorado: 363 euros, por ano.

A educação da criança do 6 aos 10 anos é obtida no curso preparatório. Dos 11 aos 14 anos, no colégio. E dos 15 aos 17, na lycée, escola. Pela manhã, os alunos começam seus estudos às 8:30h e saem às 11:30h para almoçar. Voltam às 13:30h até às 16:30h. Um detalhe importante é que eles não têm aulas nas quartas-feiras. Um problema para os pais trabalhadores que é resolvido pelas "babás de quarta-feira". À partir dos 14 anos, o aluno pode optar por um curso profissionalizante, mas isso não lhe dá o direito de, depois, entrar em uma Universidade.

Para entrar na Universidade, o aluno tem que ter cursado os 3 anos da lycée, e fazer uma prova chamada Baccalauréat. É uma prova geral para todo mundo, diferentemente do vestibular para entrar em uma Universidade específica do Brasil. Depois, se o aluno quiser continuar seus estudos, basta se inscrever no mestrado, que são mais 2 anos de estudos, apresentando seu currículo, histórico escolar e seu projeto de estudo. Para o doutorado, a seleção é mais específica e depende do curso pretendido, acrescentando 3 anos na vida escolar.

Um estudante estrangeiro que, assim como eu, quer se aventurar a fazer um mestrado por aqui, ainda tem que comprovar o seu nível intermediário da língua francesa e ter os diplomas equivalentes aos exigidos. Eles analisam seu currículo, histórico escolar, seu projeto de estudo e depois te dão a resposta, no meu caso, POSITIVA! Uhuuuu!

Quase 70% dos estudantes que querem continuar seus estudos vão para as Universidades. Os cursos mais procurados são os de letras e os relacionados às ciência humanas. Entretanto, aqui, não é só os estudos universitários que são considerados estudos superiores. Há também as "Escolas Especializadas" e as "Grandes Escolas", que não são gratuitas.

As primeiras são escolas de nível superior ligadas aos estudos de artes, arquitetura, turismo e, também, de estudos na área paramédica.

Já as "Grandes Escolas" são consideradas o que há de melhor na educação superior francesa. Para entrar, o estudante, depois do baccalauréat, ainda tem que fazer dois anos de um curso preparatório para fazer uma prova. Passando na prova, ele entra para a Grande École e, quando sai, seu diploma tem equivalência ao mestrado, permitindo o acesso direto à tese de doutorado. Uma Grande École forma os melhores profissionais nas áreas de engenharia, agronomia, veterinária, educação, defesa e administração pública.

Acho que o Brasil tem muito o que aprender com o sistema de ensino francês, a começar pela gratuidade, pelo incentivo à pesquisa e qualidade incontestável. Além do mais, os políticos e governantes franceses são formados em uma Grande École, com exceção do atual presidente Sarkozy, criticado por ter 'apenas' um mestrado... Um pouquinho diferente do Brasil, né, Lula! Ei, companheiro! Tô falando com você!

Leia, aqui no blog, o que aprendi depois que escrevi esse post: "O Sistema de Ensino Francês: verdades para quem quer ler e enxergar"

E você quer mais dicas sobre morar ou estudar na França? Então clique AQUI e "fale comigo, fale com a gente!".

sexta-feira, 19 de março de 2010

Como vim parar aqui?

Fim da primeira semana de provas do curso de francês. Ufa! Fatigante! Como estudei muito para as provas, meu francês desenvolveu bastante nos últimos dias. É impressionante como progredimos quando sentamos bunda na cadeira e realmente estudamos.

Ontem fizemos uma prova de expressão oral na qual a professora nos deu um tempo de 4 minutos para falar sobre o tema: "Minha vida em Lyon". Mas, antes de fazer o nosso pequeno e intenso discurso, ele nos deu um tempo para refletir. Então pensei: como vim parar aqui?

É difícil escolher uma data ou um fato para marcar um início. Poderia falar que ter começado a fazer balé aos 4 anos influenciou a minha decisão, ou ter estudado psicologia, educação, psicomotricidade e ter lido tantos textos de autores franceses, ou sempre ter achado linda a sonoridade da língua francesa, ou ter ganhado de presente dos meus pais uma viagem pela Europa e ter começado a fazer aulas de francês para não ficar muito perdida na minha aventura sozinha em Paris, já que eu tinha escutado que os franceses não gostariam de falar comigo em inglês.


Nossa! Posso escrever um post só de motivos, de fatos da minha vida ou de características da minha personalidade, ou nomear pessoas que influenciaram na minha escolha. Mas, durante a minha reflexão pré prova, concluí que muitos fatores da minha vida me levaram a fazer esta grande mudança. Não tinha como ser diferente, tanto que estou aqui agora.

Mas, para quem quer fazer uma semelhante mudança na sua vida vida (mudar-se para a França), saiba que o caminho pode ser um pouco longo, cansativo, burocrático, mas bem possível.

Ao procurar por uma professora particular de francês, encontrei a minha querida Bia, depois que conheci uma de suas filhas em uma balada de Bh. A Bia tinha uma outra filha que morava e estudava em Lyon. Um dia, durante a aula, ela me perguntou: "Por que você não se muda para Lyon e faz um mestrado por lá?" Fui dormir com aquele pergunta ecoando na minha cabeça. Acordei e me perguntei: "Por que não?". Como não achei motivos para não ir e mil motivos para ir, então, fui!

Mas, para vir, tive que:
  • Escolher um curso (curso de francês) e me matricular nesse curso (como sou "chique, bem", fiz a matrícula pessoalmente durante meu tour pela Europa e acompanhada pela minha professeur de français).

  • Mas para isso, tive que: traduzir minha certidão de nascimento e diploma de faculdade, além de pagar a taxa de inscrição.
  • Com inscrição e comprovante de pagamento em mãos, cadastrar-me no CampusFrance e seguir as seis etapas do procedimento para obtenção do visto de estudante. O CampusFrance é um serviço pré consular. Você só consegue o seu visto passando por ele. Essas 6 etapas são muito chatas, principalmente porque você tem que preencher uns questionários em francês (Obrigada, Bia!), anexar os documentos originais, cópias traduzidas, por um tradutor juramentado, de seus documentos, diplomas e históricos escolares e, além disso, cópias autenticadas de tudo ( aí dói no bolso, porque, no meu caso, gastei mais de mil reais com isso), fora o tempo de ir nas faculdades para fazer os pedidos, pagar e depois voltar para buscar, enfrentar as filas dos cartórios...
  • Com o OK do CampusFrance, com a pasta de documentos traduzidos, fotocopiados e autenticados em mãos, dar entrada no pedido de visto ao Consulado. Mas para isso, você ainda tem que acrescentar ao seu dossiê (e pode se acostumar com essa palavra porque para tudo aqui na França você precisa fazer um "dossiê" e uma "carta de intenção" justificando até o porquê de você querer utilizar um banheiro):
  1. uma declaração de um responsável dizendo que ele vai te enviar pelo menos 430 euros por mês, uma declaração de idoneidade bancária dessa responsável (ambos traduzidos pelo tradutor juramentado), mais a sua última declaração de imposto de renda e os últimos 3 contra-cheques,
  2. declaração de alojamento na França, que quer dizer uma atestação de que você não vai morar nas ruas, serve até uma reserva de hotel por uma semana (mas o tema "procura de moradia na França" vale um outro post),
  3. passaporte válido e cópias das 3 primeiras páginas, um formulário amarelo devidamente reenchido em francês,
  4. uma foto um pouco maior que a 3X4,
  5. cpf com cópia,
  6. seguro viagem com cobertura de 30.000 euros para emergências e 30.000 euros para repatriamento. (Só que quando você chega aqui, você é obrigada a fazer um outro seguro saúde pago, mas barato, se você tem menos de 28 anos e é estudante, e pode fazer um gratuito, se você tem mais de 28 anos)
Aí o Consulado agenda a sua entrevista na Embaixada do Rio de Janeiro. Você vai até lá, certa de que está com tudo em mãos, mas te pedem algo que você não tem e que tem que providenciar rapidamente contactando a França, sendo que você ainda não fala bem francês. Mas você se vira (Obrigada, Amanda!) e consegue, e envia correndo para o consulado, que envia para a Embaixada que te envia o seu passaporte com o visto 3 horas antes de você ir para o aeroporto. No stress!

Pronto! Só isso! E você vem estudar francês na França antes de começar o seu mestrado (minha próxima montanha à vista). Mas quando você chega aqui, você percebe que os franceses amam serviço público, (grande parte da população trabalha como funcionário público) então, eles fazem a gente utilizá-lo bastante, mesmo se você acabou de chegar há uma semana e não entende o que eles falam. "Pas de problème"! Como eles dizem o tempo todo.

Esse caminho é longo e cansativo, mas a minha conclusão é que valeu a pena passar por tudo isso. Estou adorando viver aqui! Mesmo com saudades da família e dos amigos brasileiros, estar aqui, hoje, faz muito sentido na minha vida. Não poderia estar agora em um outro lugar. Não consigo explicar, só consigo sentir.
Beijos!

terça-feira, 2 de março de 2010

Aprendendo a Língua Francesa

Estou aqui em Lyon, há quase dois meses, praticamente por conta de aprender a língua francesa. "Que vida mansa" - vocês podem pensar. Realmente, quando eu penso que estou tendo a oportunidade de morar na França, numa cidade maravilhosa como Lyon, conhecendo pessoas diferentes e tendo experiências tão especiais, parece que ainda estou sonhando. Entretanto, com os pés no chão, la vie não é tão rose...

Cheguei em uma cidade na qual não conhecia ninguém. Estive aqui em outubro do ano passado, mas fiquei menos de dois dias, então, tinha só uma pequena noção da cidade. Não sabia onde ficava nada e mal me comunicava em francês. Sentia-me como uma "caloura" no primeiro dia de faculdade, só que em todos os lugares que eu ia e durante 24 horas por dia.


Tudo bem. Sobrevivi a esse primeiro momento. Ter vindo morar na casa da madame Françoise me ajudou muito. Além dela ser professora de francês, havia mais três habitantes: um japonês, um italiano e um árabe. Língua oficial da casa: francês.

Contudo, aprender uma outra língua não é nada simples. Graças aos meus pais e minha avó, falo inglês (ou falava porque agora misturo tudo). Comecei a estudar essa língua aos 8 anos. Mas no Brasil, escutamos músicas, vemos filmes, falamos muitas palavras em inglês no dia a dia.
O mesmo não acontece com o francês. Há um ano atrás, não sabia contar de um até dez. O que sabia de francês era a nomenclatura de balé clássico (que agora, para mim, já ganhou um novo sentido).

Mas vamos pensar em como acontece a aquisição da língua materna. Normalmente, um bebê nasce já inserido em uma cultura onde há uma língua oficial. Há estudos que dizem que mesmo dentro do útero já é iniciado o processo de aprendizagem da fala. Depois que nasce, o bebê passa a escutar tudo ao seu redor. Depois de 3 meses já começa a ensaiar alguns sons. Depois de mais ou menos 2 anos observando, escutando a língua materna, a criança inicia a sua comunicação verbal, dizendo sons que se parecem com palavras, dizendo palavras que passam a ser acompanhadas por verbos, e aos poucos nascem as pequenas frases. Pronto! Não precisa mais só chorar ou apontar para as coisas ou para os lugares. Com três anos uma criança já é capaz de contar o que aconteceu na escola. Com quatro, já é capaz de surpreender um adulto.

A linguagem e o pensamento caminham de mãos dadas. A partir do momento em que a criança adquire a linguagem, ela passa a desenvolver mais o seu pensamento, que desenvolve a linguagem, que desenvolve o pensamento... E assim, depois de mais ou menos 11 anos de vida, a criança passa a ter um pensamento complexo trabalhando com hipóteses. Nessa época, já adquiriu muito vocabulário e é capaz de utilizar todos os tempos e modos verbais no seu discurso.

Vivi isso com a língua portuguesa. O francês é, muitas vezes, semelhante ao português. Ambos têm a sua origem no latim. Só que eu nunca tenho certeza se a palavra que eu quero utilizar é semelhante ou não. Além disso, há as conjugações verbais, as exceções, os casos especiais, as letras que estão escritas mas que não são pronunciadas, a fonética...

Meu problema é:
  • O francês não é a minha língua materna;
  • Não sou um bebê e tenho muito mais de 2 anos;
  • Não tenho um tempo de dois anos para fazer uma pesquisa de campo;
  • Não posso ficar mais me comunicando por sons que se parecem com palavras, nem só com algumas palavras, ou pequenas frases;
  • Preciso de todos os tempos e quase todos os modos verbais para exprimir o meu raciocínio complexo;
  • Preciso de muuuuuuiiiito vocabulário.
Não dá mais para eu conversar, dizendo apenas o meu nome, que eu sou brasileira, a minha profissão e o que eu estou fazendo perdida aqui em Lyon. E não dá mais para ficar com aquela cara de retardada quando a pessoa quer conversar para além desse assunto. A pessoa te olha e acha que você não tem opinião formada a respeito de nada ou que você está com essa cara de retardada porque você realmente é uma. Aí, no desespero eu solto uma explicação:

#tecla sap#
_ Eu não sou estúpida. Eu não compreendi o que você falou. Eu não sei falar bem francês, ainda.

Minha solução:
  • Fazer um ótimo curso de francês;
  • Estudar muuuuuuuiiiiiiito;
  • Ficar atenta nas ruas escutando as conversas;
  • Escutar música, assistir filmes, ver televisão, escutar rádio;
  • Criar situações para que eu possa falar, falar e falar.
Esse último ítem é interessante, porque temos a tendência a formar grupos de iguais. Os brasileiros com os brasileiros, os chineses com os chineses, os americanos com os americanos...
Para mudar esse hábito, que traz conforto e segurança, é preciso se arriscar, se colocar à prova. A própria Universidade onde faço o curso de francês, ajuda o aluno nisso. Podemos fazer vários cursos de danças e esportes em geral, pela quantia de 20 euros por semestre. A maioria dos alunos é composta por francêses. Há um setor especializado que auxilia no intercâmbio de línguas ( um aluno francês querendo aprender português, ou um americano querendo aprender chinês, um brasileiro querendo aprender francês e um chinês querendo aprender inglês), que formam os pares da melhor maneira possível.

Fora da universidade, você encontra, por exemplo, sites como http://www.livemocha.com/ que é de um curso de idiomas on line e gratuito, onde há uma interação entre os interessados em praticar a conversação e a escrita. Fora do mundo virtual, há lugares onde as pessoas se encontram para as "trocas de conhecimento". Aqui em Lyon, tem um café chamado "Café Polyglotta" ou "Café Linguistique" onde isso é possível.

Mas o melhor de tudo, é se colocar em situações de trocas verdadeiras. O meu final de semana em Saint Étienne favoreceu meu encontro com vários franceses, dentre eles, minha nova amiga francesa interessada em aprender português para fazer um curso em Portugal.


Saindo com ela, conheci mais pessoas interessantes e francesas,


que me apresentaram mais pessoas interessantes e francesas...


Língua oficial: francês! E assim, vou seguindo em frente.

PS.: Mas não há nada como falar em português com minha família e amigos brasileiros, viu!!!

(leia também no Blog: Aprendendo a Língua Francesa II - dificuldades mais complexas)

Você quer mais dicas sobre morar ou estudar na França? Então clique AQUI e "fale comigo, fale com a gente!".

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Provas

Hoje, acabei de fazer as provas da Universidade para saber o meu nível de francês. Sei que não vai ser um nível avançado (visto que comecei a estudar a língua no final de maio do ano passado), mas também sei que não vai ser um tão básico (visto que comecei a estudar a língua no final de maio do ano passado).
Mas as provas me impressionaram. Tive que fazer 2 redações ontem (uma com o mínimo de 80 palavras e outra com o mínimo de 200). Hoje, tive uma prova oral com 2 professoras e eu na sala. Nessa prova, além de responder questões a meu respeito e sobre minhas intenções na França, sortiei 2 temas: 1- "meu jogo preferido" (futebol); 2- "os animais são os melhores amigos dos homens?" (não, quando estou com problemas não converso com animais. Tenho "beaucoup" de amigos). Depois tive prova na sala de informática... A sala de informática é uma sala de informática do primeiro mundo. São 60 macs brancos, daqueles com telas enormes. Fiquei encantada. Mas o que mais me impressionou foi esta prova que avaliava a compreensão oral e a compreensão de texto. Sentí-me fazendo vestibular. Tinha tempo determinado para cada questão. Dentre 50 questões, escutei um texto de um palestrante terapeuta falando sobre a mudança do valor de Família na Europa. Li um texto sobre a emissão de gás carbônico em Paris e outro sobre o nascimento de uma nova língua francesa a partir da grande quantidade de imigrantes que habitam a França e que lhe acrescenta novas palavras e expressões. Os textos eram enormes e as questões eram interpretação de texto tipo de vestibular mesmo. Nada era óbvio. Quando eu acabei a prova senti a profundidade das minha olheiras.



Ao voltar para casa fazendo uma caminhada, esfriando a cabeça e congelando os pés e o nariz, pensei: "ou esses franceses são uns exagerados, já que se trata de prova para um curso de línguas, ou somos nós que exigimos pouco de nós mesmos no dia a dia. O que é complexo para a gente pode ser trivial para eles quando se trata de educação. A Educação aqui é levada a sério, em qualquer nível.
Mas, como a minha caminhada de volta para casa foi de meia hora, pensei ainda mais... As Provas da Vida... Para mudarmos de nível de vida, fazemos provas, passamos por testes. É impossível fazermos uma mudança sem sermos testados. Algumas provas são mais leves. Às vezes, podem passar desapercebidas. Outras são longas, complexas, cansativas e nos deixam com olheiras profundas... Mas elas têm tempo determinado. Seus tempos se esgotam. Como resultado a gente tem uma evolução ou uma involução na vida. Há aqueles que podem pensar: "Não evoluí, nem involuí. Continuo na mesma". Mas, a estagnação é um involução visto que o mundo continua girando e o tempo continua passando. O estagnado fica para trás. Aí, para saber o nosso nível, é só comparar a gente hoje com a gente ontem e tirar a própria conclusão.



Bjos para vcs,
Cá.
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