Em 1909, Freud saiu da Áustria, provavelmente pegou um trem até uma cidade portuária. Aí, pegou um navio e depois de longos dias chegou nos Estados Unidos para uma conferência. Num diálogo com Jung, ainda dentro do navio, ele teria dito algo mais ou menos assim: "Eles não sabem que estamos lhes trazendo A Peste", já que, apresentaria, ao vivo, a sua teoria psicanalítica, com a noção de Inconsciente, o que modificaria a maneira de se pensar o ser humano, suas ações e relações.
Adoro psicanálise, mas ela não é o tema deste post. Escrevi esta introdução somente para chamar a atenção de vocês no que se refere à circulação de informação do início do século XX. Demorava para uma "teoria revolucionária" atravessar o oceano, né?
Hoje em dia, não é mais assim, claro. A internet simplesmente acabou com as distancias de tempo e de espaço. A notícia circula praticamente em tempo real. Até mesmos os telejornais com horários fixos, quando vão ao ar, já estão atrasados.
Fazer uma pesquisa nesta Era também é muito mais fácil. Não imagino como faria um mestrado
sem internet. Como pesquisaria sem os sites especializados em traduções, sem ter acesso aos artigos de revistas, livros e vídeos.
Com a internet você pode ser capaz de escrever um artigo em Inglês, conhecendo o básico da língua. No mestrado, agora tenho aula de "Inglês Científico". O professor é francês e não fala bem inglês (the hause = ze oze), mas ele domina os sites que interessam. Dou a dica: abra 4 janelas no seu computador
1) "Google Tradutor"
2) "Google Scholar"
3) "Word Reference"
4) Um documento no "word"
Sabendo articular essas quatro janelas, você é capaz de escrever um artigo em qualquer língua!
Adoro ter uma internet para fazer minha pesquisa, mas também não é este o foco deste post. O que me fez pensar nisto tudo foi a minha última aula de dança. Dou aula de "Danças Brasileiras" para uma turma de adultos. Contudo, há duas super adolescentes de 13 anos infiltradas no grupo. Elas chegaram todas "serelepes" na última quinta. O motivo? Queriam que eu dançasse com elas uma música que T-O-D-O-S estavam dançando na escola. Adivinhem... "Ai se eu te pego". Pegaram o telefone, pesquisaram na internet e me mostraram um vídeo de um jogador dançando em um vestiário" ( mais de 14.000.000 exibições) e um outro vídeo com a mesma música (mais de 30.000.000 exibições). Alguém pode me explicar o que está acontecendo?
Pausa de indignação...
Dois anos fora do Brasil. Estou super desatualizada com relação às músicas e "dancinhas". Há mais ou menos 10 dias atrás que fiquei sabendo da existência do cantor, música e da coreografia dançada até por jogadores de futebol (?!). Achei exagero ouvir "o Mundo Todo está dançando 'ai se eu te pego'", mas, infelizmente, não. É fato confirmado, pelo menos aqui na França, em Lyon.
Tenho o maior cuidado em preparar as aulas de "Danças Brasileiras". Apresento aos alunos as muitas músicas de qualidade que temos. É uma difícil escolha dada a diversidade de cantores e rítmos que nos embalam. Mas, Não! Não vou dar aula com esta música. Não! Não vamos fazer esta "dancinha". N-U-N-C-A! Nem nenhuma outra dessa corrente de "créu". Creio que o Brasil tenha algo melhor a exportar.
Você pode não concordar comigo e dizer que tudo é uma questão de gosto e que gosto é igual bunda, cada um tem o seu. Concordo. Você pode se perguntar se eu sempre fui imune a esse tipo de "dancinha" e se eu, com 13 anos, não dançava "lambaeróbica" nas areias de Porto Seguro. Dancei. E "O Tchan" alguns anos mais tarde? Talvez tenha dançado um pouco, não me recordo muito bem... E como gosto é igual bunda, ele se modifica com o passar do tempo.
Minhas alunas se divertem com minha indignação. Elas cantam a música e dançam. Eu a traduzo numa tentativa de inibí-las. Contudo, elas já o tinham feito, com o celular mesmo, e nem se importaram. Acharam-na engraçada. Insisto na castração e explico o sentido das expressões, mas elas não estão nem aí. Ai adolescência... Freud, o que você pensa disso tudo?
Então, desisto e sublimo. Mudo de assunto e começo a aula com uma música bem boa. Meus ouvidos me agradecem! Chego a pensar que os bons tempos eram aqueles onde a informação demorava mais para se espalhar... Talvez as distancias de tempo e espaço pudessem fazer uma seleção natural nos assuntos. Mas, não. Na Era da Globalização, essa seleção não existe mais. Ela passa a ser uma escolha pessoal que depende do gosto de cada um, para ser bem simplista. E quem influencia nossos gostos? Na falta de uma resposta imediata, e de um "filtro" também, daqui eu confirmo: A Peste já chegou!


