quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Enquanto seu Lobo não vem

As pessoas me perguntam: "você está gostando de morar na França?". Minha resposta sempre é "sim". Posso citar hoje dois pontos positivos:

O primeiro é poder ver e sentir as quatro estações do ano. Isto prá mim é uma maravilha: aprender com a natureza que a vida é cíclica! O primeiro dia de janeiro começa em pleno inverno, neve, gelo, um super frio. É claro que o aquecimento dentro das casas e os casacos de hoje em dia não deixam a gente sentir frio. Então é preciso se acostumar com o ritual de se vestir: meias-calças, meias, botas, 2 blusas de manga comprida, casaco, calça, cachecol, gorro e luvas... Fazer isso durante duas semanas? Tranquilo! Mas agora, vai se vestir assim durante 6 meses... E a isso, acrescente os dias curtos, a falta de luz... Chegar na Universidade às 8 da manhã com o céu escuro e voltar prá casa às 17 horas em plena noite não é mole não.

Contudo, quando você não está mais suportando sair de casa, nem tanto pelo seu estado depressivo, mas porque você não aguenta mais sair cheia de roupas, chega a bem vinda primavera toda verde, florida e ensolarada convidando as pessoas a saírem do período de hibernação. As pessoas voltam a sorrir, ufa!

Aí chega o verão com temperaturas que chegaram à 38 graus. Ainda bem que eles têm as maiores férias neste período, porque as casas, prédios, escolas, tudo aqui é construído para suportar os meses frios do ano conservando melhor o calor. Só que quando chega o verão, eles continuam conservando o calor... Prá mim, esta estação aqui é super abafada! Faltam janelas e ar condicionados, o que torna impossível frequentar as pequenas salas de cinema ou alguns pubs tipo cavernas...

Mas a estação de agora é uma delícia! Adoro o outono com seu céu azul, suas folhas amarelas, laranjas e vermelhas! As baixas temperaturas são propícias para as bebidas quentes, sopas, para as reuniões nas casas de amigos, para as randonnées nas florestas.


Domingo - PEDE cachimbo - ( descobri isso recentemente porque sempre imaginei um pé-de-cachimbo!!!) fomos fazer um passeio numa floresta ao norte de Lyon. Da mesma maneira que o governo municipal cuida dos lagos, eles cuidam de florestas próximas às cidades onde os franceses têm o hábito de fazer suas caminhadas, colher castanhas, champignos e fazer piquenique, claro! Uma oportunidade de se afastar da cidade, esfriar a cabeça e estar pronto para o trabalho na segundona.

Você passa um dia super agradável no meio da natureza, uma paisagem que você só via em filmes e livros de contos do fadas... E está aqui o outro ponto positivo: passear tranquila pela floresta enquanto seu Lobo não vem.

Lobo? Eles nem pensam nisso. Passeiam felizes pela estrada afora sem que a questão "segurança" passe por suas cabeças... Quando falo para meus amigos daqui que fazer um passeio deste tipo no Brasil pode ser muito perigoso, não por causa de encontros inoportunos com animais famintos, mas por causa do "bicho homem", eles acham que eu invento ou exagero.

É... Realmente é difícil de acreditar no estado deplorável da segurança brasileira. Então, explico que eu cheguei aqui com hábitos e reflexos de quem vivia em estado de alerta contra assaltos e afins e nem me dava conta disso. Depois de passado um tempo, relaxei. Aí, quando fui passar férias no Brasil, primeiro domingo, assisti no "Fantástico" uma matéria sobre "como segurar bem sua bolsa dentro do ônibus, esconder a carteira, não usar celular na rua e andar em alerta e com os vidros do carro sempre fechados"... Ai... Isso é tristemente surreal!

E a reflexão final do passeio florestal foi sobre a crise mundial e o futuro incerto da Europa, da França. Haveria alguma chance do Brasil virar uma "França" e a França virar um "Brasil"? Não chegamos à uma conclusão e nem esquentamos muitos neurônios relaxados com isso. Respiramos profundamente um ar puro e entramos no carro rumo à Lyon! Ah! Ponto negativo: aqui também tem engarrafamento de domingo, viu!

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Mestrado na França: loucura ou não?

Se foi loucura ou não pensar em sair da minha vida estabelecida no Brasil e vir fazer um mestrado na França, isso eu ainda não sei. Só sei que eu pensei seriamente nesta mudança de vida numa manhã de setembro e vim morar aqui três meses e meio depois. Três meses e meio para fechar vários ciclos no Brasil e me preparar para o desconhecido na França.

Concordo em colocar um certo grau de loucura nessa atitude quando lembro que eu cheguei aqui em pleno inverno de janeiro me comunicando praticamente em inglês, sem conhecer nada nem ninguém.

O objetivo deste ato insano seria fazer um mestrado que começaria em setembro. Logo, eu teria 7 meses para aprender a língua francesa, porque aqui, os cursos são em francês e os estudantes estrangeiros normalmente têm que fazer uma prova para comprovar um nível intermediário da língua. ( Não fiz essa prova pois meu curso de francês foi na própria Universidade).

Em junho de 2010, me inscrevi no primeiro ano de mestrado (Master 1) de Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia. Vocês podem até achar que não, mas a seleção é relativamente simples quando se trata de qualquer Licença (em qualquer curso) ou do primeiro ano de Mestrado. Para eu ser aceita, bastou fornecer minhas notas do vestibular (este é considerado como o equivalente ao baccalauréat, que é uma prova que eles fazem antes de entrar para a Universidade), meus diplomas (graduação e pós-graduação) e seus respectivos históricos de notas (claro que tudo traduzido por um tradutor juramentado), uma carta de intenção e um formulário preenchido.

A Universidade onde eu queria fazer o Mestrado é pública, sendo assim, se tem vaga e se você tem estudos considerados "equivalentes", em tempo e assunto, você é aceito. É mais difícil você entrar no primeiro ano de um curso de qualquer Licença do que no último ano ou no primeiro ano de mestrado. Isso porque as Universidades reservam as vagas dos primeiros anos para os alunos que estudaram nas escolas da região. Os primeiros anos são lotados e os últimos têm vagas por causa da evasão universitária.

Já no segundo ano de Mestrado, tudo muda. De repente, pela primeira vez na vida de um estudante francês, aparece um funil e bem estreito. Para vocês terem noção, há cursos de M2 em que são oferecidos apenas 30% do número de vagas do M1. Além disso, o aluno deve escolher se ele quer um "Master Pro" (mestrado profissionalizante) ou "Master Recherche" (mestrado de pesquisa - que é o equivalente ao mestrado no Brasil). No caso da psicologia, somente com um Master Pro que o aluno receberá o título de psicólogo e que poderá atuar no campo de trabalho. Com um Master Recherche, ele faz sua pesquisa, se prepara para o Doutorado e sua vida profissional acadêmica.

Vocês podem se perguntar:
1) E se o aluno quiser somente fazer a licença? Vai trabalhar em certos empregos que a exigência é somente no nível de licença, mas não vai ser psicólogo.
2) E o que acontece quando um aluno de psicologia que estudou seus anos de licença, fez seu primeiro ano de mestrado e não consegue passar pelo funil e ser aceito no M2? Ele pode repetir o M1 até conseguir entrar no M2 (aumentando suas notas e fazendo cada vez mais estágios), ou fazer como grande parte dos estudantes: desistir e "ir trabalhar no McDonald's", como brincavam meus colegas...

Não... O ambiente do primeiro ano de mestrado realmente não é engraçado e nem justo. A concorrência é presente e explicitada pelos alunos e professores desde o primeiro dia de aula. A seleção para o segundo ano será feita a partir das notas do master 1 (ou notas de cursos equivalentes de outros países), de um projeto de estágio (master pro) ou de pesquisa (master recherche), carta de intenção, currículum vitae, formulário preenchido (ao todo, 20 páginas escritas por você!!!). Além disso, você tem que encontrar um professor que se simpatize com seu projeto e queira te orientar.

Como eu já sou psicóloga, meu único interesse era fazer o Master 2 Recherche. Tomei conhecimento da existência desse tal de funil somente quando estava bem na frente dele. Mas, ao mesmo tempo, fiquei sabendo que meu curso de Psicologia do Brasil e minha pós-graduação em Psicomotricidade serviriam como meus equivalentes de M1, e é claro que minhas notas no Brasil, em português, eram melhores do que minhas notas de M1. Então, ao postular para o Master 2, entrei com meus diplomas e históricos brasileiros, UFA! Por outro lado, estava meio apreensiva porque queira fazer não mais o master 2 em Psicologia Cognitiva e sim, em Psicologia da Saúde e do Desenvolvimento, ou seja, departamento novo, tudo novo, de novo!

Fiquei três meses estudando muito, desenvolvendo e escrevendo um projeto de pesquisa que unisse a psicologia do desenvolvimento, a dança e a educação. Ralei muito e todo o meu esforço valeu à pena! Mas sei que o trabalho que tive foi pouco em comparação com o trabalho que terei nos meus próximos meses...


Loucura ou não, Master 2, aqui estou!!! E se você quer saber qual é L'influence de la Composition Chorégraphique Collective sur le processus de décentration chez des filles de 7 a 11 ans, ou melhor, a Influêncida da Composição Coreográfica Coletiva no processo de descentração de meninas de 7 a 11 anos, aguarde os resultados da minha pesquisa!


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