quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Encontros e Despedidas

Lyon é uma cidade muito dinâmica. Acontecem muitas coisas aqui. Pessoas chegam o tempo todo, seja para fazer turismo, trabalhar alguns dias, estudar alguns meses, anos... Há estrangeiros que resolvem fazer daqui o seu lar definitivo, mas, mesmo para os jovens franceses, o tempo da permanência é menor do que 7 anos. Isso é ótimo porque a população é renovada a cada dia e, quando se trata de fazer novos encontros, ter novas experiências, conhecer gente do mundo todo, Lyon é uma ótima opção.

Ontem mesmo, fomos jantar em um restaurante etiopiano e aprendemos mais sobre a vida nos países da África. Nunca pensei que um dia jantaria em um restaurante etiopiano, mas, de repente, eu estava lá, provando uma comida super saborosa, sem prato, garfo ou faca! Uma delícia!

Uma coisa é certa: estrangeiro atrai estrangeiro e a nossa rede de amigos acaba sendo multicultural. É claro que fazemos amizades com franceses também, mas há uma maior identificação entre aquelas pessoas que deixaram seus países, que sentem falta da família, amigos, e até do cheiro do amaciante da sua casa... Há pessoas que não conseguem entender o que é isso, mas outras compreendem perfeitamente.

A identificação é o primeiro passo para a criação de um vínculo, mesmo que ela seja inconsciente. Então, naquela primeira conversa, onde fazemos uma rápida seleção de quem tem algo a ver com você ou não, perguntamos: "você está aqui há quanto tempo?" e "você vai ficar aqui por mais quanto tempo?" A primeira pergunta é mera curiosidade e a segunda é uma questão de segurança.

Esta última pergunta é muito importante porque aprendemos aqui, na marra e incessantemente, que as pessoas estão de passagem pela nossa vida. Na conversa inicial, duas forças entram em ação: uma de atração e outra de repulsão. Saber quanto tempo a pessoa ficará por aqui é uma espécie de defesa, uma inteligência do nosso Ser que, à partir da resposta dada, faz um cálculo de quanto e de como a gente pode se ligar ao novo conhecido.

Contudo, para ajustar essa função são necessários anos de experiência... Um ano é pouco. Mas, na verdade, não sei se quero me calejar neste sentido. Endurecer demais também é ruim. Assim, ver uma amiga partir ainda é triste. Ajudá-la a tirar as últimas coisas do seu apê, deixando-o vazio, não é mole não, afinal, somos mais chegados aos encontros do que às despedidas, né?! E, no fundo, a gente sabe que a nossa vez pode tardar, mas não faltará...

Amanhã, o Brasil vai ter a felicidade de receber uma colombiana linda, arretada, poliglota, mestra em "mojitos" e que se apaixonou à primeira vista pelo país verde e amarelo.







Que ela continue sua jornada cheia de paz e brilho. Força na peruca, Laurita!!! Encore, encore et encore! Bisous à toi et à bientôt!

domingo, 23 de janeiro de 2011

Em Barcelona

Não, gente! Não estou em Barcelona. Estou em Lyon mesmo. Hoje é domingo e a temperatura lá fora é de -3 graus. Até que tem um solzinho enfeitando o céu azul, entretanto, com o vento forte e incessante, a sensação térmica é de inverno russo. Para aquecer, só mesmo ficando em casa com as janelas super fechadas, aquecedor ligado, chás, sopas... Não sei porquê, mas me lembrei do meu super verão e me dei conta de que ainda não tinha escrito sobre ele.

No início de agosto de 2010, verãozão na Europa, fui passar 10 dias na capital da Catalunha. Barcelona, a segunda maior cidade da Espanha, a primeira é Madri, é situada à nordeste da península Ibérica, banhada pelo Mar Mediterrâneo.


Maior centro industrial do país, Barcelona possui o maior porto do Mediterrâneo. A língua oficial da região é o catalão, mas eles falam igualmente espanhol e qualquer outra língua que o turista quiser falar. Para ser a sede dos jogos Olímpicos de 1992, ela passou por várias transformações e ganhou grande projeção internacional.

Parque Güel

Ela é o primeiro destino turístico da Espanha, mas também não é por menos... É uma cidade simplesmente maravilhosa, a mais feminina que eu já visitei na minha vida. Linda, colorida, cheia de curvas,  de verdes, de gente simpática vinda de todo o mundo.

Ela foi musa inspiradora de muitos artistas que nela deixaram suas contribuições. Lá você encontra o Museu Pablo Picasso, a Fundação Joan Miró e Antoni Tapies. E pela cidade, você encontra as obras do Arquiteto Antoní Gaudi dentre tantos outros.


La Pedrera
Sagrada Família












O bom de Barcelona é você sair à pé e se deixar perder pela cidade, seja de dia ou à noite. Você encontrará desde Ruínas Romanas e um bairro Gótico, até bairros do Modernismo Catalão.

Com as altas temperaturas, as praias, que se diferenciam de acordo com o público que as frequentam, estavam lotadas, o sol incansável e a água sempre fria.

Para a night, programa é o que não falta. Dez dias é pouco para conhecer uma cidade tão maravilhosa e rica culturalmente.

La Ramba é o lugar mais frequentado da cidade pelo turista, uma passarela cheia de gente, comércios, bares e restaurantes. Falando nisso, impossível não provar uma paeja, né? A não ser que você tenha alergia a camarão, como eu.

Mas para falar a verdade, o lugar que mais gostei de comer foi no Mercado La Boqueria.


Entrei e me senti no Mercado Central de BH. Lá eles servem tapas deliciosos. O difícil é sair de lá!










Se você também quer fazer turismo nos arredores de Barcelona, a cidade de Tarragona é uma excelente opção e considerada patrimônio histórico pela Unesco. Lá você se encanta com os monumentos romanos, com os cenários de filmes espanhóis e com a água cristalina do mar.























Já a cidade de Sitges, é considerada o paraíso dos homossexuais, deve ser por isso que havia tantos por lá. Todo mundo em harmonia curtindo o sol e a prainha gostosa. Diversão garantida!










Na nossa volta para a França, ainda fizemos uma parada na cidade de Figueres para conhecer o Teatro-Museu de Salvador Dalí. É uma parada imperdível!!!


O bom de morar na Europa, e ter muitas férias, é que você pode visitar essas cidades com calma. Viajar de carro é muito bom para conhecer melhor as paisagens e, além disso, o fato de você sair de Lyon e, depois de apenas 6 horas, chegar em Barcelona ajuda muito, né?! Voltarei com certeza!!! Barcelona é uma cidade que eu gostei tanto  que me deu mesmo foi vontade de morar lá! Quem sabe?

Bom, dizem que recordar é viver (o que aprendi que não é inteiramente verdade), mas voilà... Dei até uma esquentadinha...


terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Sistema de Ensino Francês: verdades para quem quer ler e enxergar


Sobre meus óculos, a "Alegoria da Caverna" e o Sistema de Ensino na França:



Há um mês uso óculos. "Astigmatismo" foi o diagnóstico que o médico deu para o meu enxergar meio embaçado, sem foco preciso, segundo ele. Leitura Corporal à parte, o fato é que não percebia que estava com algum problema. Só fui convencida dele quando coloquei meus óculos pela primeira vez. A sensação que tive foi que a imagem ao meu redor de 4 megapixels tinha passado para 18. Tudo tem um contorno definido! O mundo ficou mais nítido! Adaptei-me instantaneamente às minhas novas lentes.

Mais focada e aqui em Lyon, preparei-me para a minha semana intensa de provas. Muita matéria, leituras, exercícios... Nada em português. Quando a tão "esperada e temida" semana dos alunos chegou, em um dia, tivemos 3 provas dissertativas, com um intervalo de 10 minutos entre elas: uma às 8hs, outra às 10hs e a última às 12 horas! Meu cérebro conseguiu descansar só 3 dias depois...

Minha fase de enamoramento com a França e seu Sistema de Ensino acabou aqui! Não é nada grave, nada que me faça mudar de planos. É simplesmente o efeito dos meus óculos e da nova capacidade de enxergar o mundo mais nitidamente.

Tudo isso me faz lembrar do texto da "Alegoria da Caverna", onde Platão, o filósofo e autor, nos faz imaginar uma situação na qual seres humanos, que nasceram dentro de uma caverna, lá viviam suas vidas acorrentados. Eles, sempre de costas para a abertura da caverna, só enxergavam as sombras das pessoas que viviam do lado de fora, assim como, escutando as suas vozes, pensavam que eram os sons produzidos pelas mesmas. Para esses seres humanos de Platão, a realidade era a sombra. Ele pede para seu leitor imaginar o que aconteceria se um deles se libertasse das correntes e fosse para o exterior da caverna, ao encontro da luz. Ele veria a real realidade. Quais riscos ele correria se resolvesse voltar para dentro da caverna e dissesse para seus companheiros que aquela realidade das sombras não era a verdadeira? Seria ignorado? Tido como mentiroso? Louco? Seria perseguido e morto? - É o tipo de texto que nos ajuda a refletir diante de muitas situações da nossa vida...

Não sei como vou explicar isso à vocês, mas, infelizmente, acho que a Universidade francesa enxerga sombras e jura que é a única realidade possível. Minha angústia a esse respeito cresce não só porque agora sou uma estudante desse Sistema, mas, principalmente, porque sou uma estudante de mestrado em Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia. Estudo o cérebro a fundo, as funções cerebrais, tim-tim por tim-tim. Estudo às disfunções, doenças, demências. Mas o que me deixa muito feliz é estudar as funções cerebrais no enfoque da aprendizagem e de sua potencialização.

Dentro dos laboratórios da Universidade, quando vamos fazer uma pesquisa, procuramos identificar os fatores que podem alterar o resultado e, na medida do possível, controlá-los. A Universidade aqui de Lyon é uma referência mundial em pesquisas nesta área. Estuda-se muito sobre a memória, as bases dos processos de aprendizagem e, consequentemente, do processo de educação. Muitas das teorias que estudamos no Brasil saem daqui, quentinhas, diretamente do forno.

Entretanto, a França, muitas vezes considerada o país das incongruências, faz jus à sua fama e peca ao deixar as teorias dentro dos livros e bem longe da prática. Porque eu pergunto: alguém tem dúvida que a minha capacidade cognitiva durante a terceira prova estaria prejudicada? E a capacidade do aluno que foi mal na primeira prova e que teve 10 minutos para respirar antes de começar a segunda? Isso sem pensar na terceira, quando eu já estava até vesga. E quem estava com vontade de ir no banheiro?

Nas provas dissertativas não é só o conteúdo que é avaliado, mas também a maneira como você consegue fazer uma ligação entre fatos, causas e efeitos, a maneira como expressa suas idéias, considerando inclusive o domínio da língua escrita. Alguém duvida que uma estudante estrangeira que estuda francês há um ano poderia ter mais dificuldades para desenvolver suas idéias? Nada dessa breve análise superficial é levado em consideração, nem mesmo por meus professores, grandes experts nesses assuntos...

O exemplo da minhas 3 provas durante uma manhã é um dentre váaaaaarios que poderia citar e é por isso que considero a França como o país da gastronomia "do conhecimento sobre educação". A "cozinha" é a Universidade, mais especificamente os departamentos envolvidos nas pesquisas das Ciências Cognitivas. Comidas saborosas, nutritivas e novas receitas saem daqui. O problema todo é que grande parte da nação e meus professores vivem de regime! Não aproveitam aquilo que produzem. Êta desperdício!

E se eu questiono, reclamo e digo a meus colegas ou professores que há uma realidade diferente das sombras, uma realidade onde a flexibilidade e a criatividade e o contato humano são essenciais, poucos são aqueles que acreditam nessa luz. Da maioria, recebo sorrisos amarelos bem amarelos. É o lado ruim de se ter uma longa história onde as pessoas se acorrentam em tradições inúteis.

Há mais ou menos 2 anos, houve uma greve de professores aqui, de pessoas que enxergavam o que eu estou enxergando só agora, mas que foram vencidos por seus colegas e alguns governantes, acomodados demais para querer ter o trabalho de mudar. Ainda bem que esses primeiros existem. Que eles não desistam da necessária mudança! Ainda tenho esperança!

A verdade é que me decepcionei, mas só na minha cabeça é que algum dia existiu uma França "ideal", ou na sua também? Na "real", estou aqui para estudar, então, estudo e muito! É meu foco. Aqui tem comida boa, tenho fome e vou me nutrir. Agora, se tem gente que quer viver de regime ou de baguette...


quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

BH - Lyon: a aventura da volta prá maison!

Acabaram minhas curtas férias em BH. O jeito foi voltar para Lyon e me preparar para enfrentar uma semana de muito estudo antes das provas finais do primeiro semestre do mestrado. Entretanto, há um oceano que separa essas duas cidades e para sair de uma e chegar na outra, o melhor é pegar um avião, a melhor (?) opção!

Nem preciso falar que, no dia 3 de janeiro, o aeroporto de Confins estava lotado... Peguei um vôo da TAP que sai de Belo Horizonte e vai até Lisboa. Começamos bem, com 2 horas de atraso, para deixar o solo brasileiro. Mas eu deveria ter aproveitado mais o conforto da sala de embarque...

Desta vez dei o maior azar e meu assento foi aqueles bem no meio do avião. Quem já viajou num desses lugares sabe o que eu passei...


Sabe o que é entrar no avião e passar pela primeira classe, pela classe executiva e se dirigir pro fundão. Lá, se o passageiro da frente já chega e inclina a poltrona para trás, ela passa a ficar a dois palmos do seu nariz, não porque ela inclina muito, mas porque todo mundo está muito próximo mesmo. (Aliás, se a poltrona inclinasse de verdade, nossa cabeça não ficaria caindo para frente enquanto a gente cochila...)

Bom, mas nem cochilar direito eu pude, pois, para piorar a situação, viajei prensada entre um português tagarela e uma brasileira um pouco acima do peso e muito espaçosa... A temperatura era inspirada no Pólo Norte. O jantar, servido às 3 da manhã, foi um frango cru com quiabo e angu servido na marmita de alumínio frágil (cuidado!), que esfriou rapidinho. Tudo sem sal e com muita turbulência... O jeito foi tomar um dramin e rezar.

Chegando em Portugal, por causa do atraso, eu tinha exatos 32 minutos para sair do avião e entrar no que me levaria à Lyon. Mas, eu estava na turma do fundão e, quando a gente tem pressa, aparece um tanto de lesma na nossa frente. Não só lemas, mas também uma fiiiiiiiiiiiiiiila para passar pela alfândega. Se fosse enfrentar a fila, adeus conexão! O jeito foi passar óleo de peroba na cara e caminhar a passos firmes por entre as pessoas tão decididamente que elas nem puderam questionar minha ação. Para um único olhar de buldogue que me fritou, uma resposta: "última chamada para meu vôo!"

Então, a fila de detector de metais. Já não viajo com cinto para não ter o trabalho de tirá-lo, mas meu i-poid, esquecido dentro do bolso da calça, acionou o alarme, que acionou uma segurança que me revistou demoradamente. "É meu i-poid!" Então, ela o pega e o joga de qualquer jeito dentro de uma bacia, mas um fone cai prá fora e fica preso na lateral da esteira que trava. Esteira prá frente, prá trás, prá frente, soltou! Saio correndo igual à uma louca procurando o portão de número 11. Fico feliz ao ver o finalzinho da minha fila com destino à Lyon!

Ofegante e triunfante entrego meu cartão de embarque.
_Estavas em qual vôo, senhorita?
_No que veio de Belo Horizonte.
_Ele se atrasou?
_Duas horas.
O funcionário olha sério para a tela do computador.
_A senhorita perdeu seu lugar neste vôo. A companhia aérea vai tentar te recolocar no vôo noturno e localizar sua bagagem.

Ops! Calma lá! Vôo noturno = (7 horas de espera em Lisboa + chegar em Lyon e não conseguir pegar mais o trem para o centro da cidade + desembolsar 70 euros de taxi) x TENTAR!!!

Aprendi, neste final de semana, que nessas horas a gente tem que rodar a baiana, mas eu estava sem forças e com muita dor de garganta. As palavras ditas em português de Portugal foram como um balde de gelo... Já que não conseguia armar um barraco, o jeito era usar meus dons de atriz. Então, olhando bem nos olhos do funcionário, comecei a chorar:
_ Eu não posso perder esse vôo... Amanhã de manhã eu tenho prova... Eu tô doente e meus remédios estão dentro da minha mala... Eu não conheço ninguém aqui... Como eu vou fazer?

E parece que o portuga se comoveu com minhas lágrimas de crocodilo:
_Não precisa chorar, senhorita. Espere!
Ele dá uma olhada no computador enquanto enxugo meu rosto. Ele rabisca o número do meu assento e escreve outro.
_Pronto! Podes embarcar!
_Muito obrigada! - E passo correndo pelo corredor, já vazio, que liga o saguão ao avião.

A aeromoça me recebe com um sorriso e me indica o lugar da minha poltrona:
_Fica neste corredor à direita, antes da cortina.
Antes da cortina? Fui me aproximando... Isso quer dizer que não há uma cortina que me separa da primeira classe? Sim! Não havia! Eu estava na Primeira Classe!

Champagne? Claro, obrigada! Bacalhau grelhado ao molho de abacaxi com um delicioso risoto? Bien sûre, merci! Ainda mais com louças, talheres e taças de verdade. Alguma revista, jornal? Não, obrigada! Depois de "encher a barriga", só mesmo reclinar a poltrona individual, sem ninguém ao meu lado, fazendo-a virar uma cama... Um luxo! Pena que Lisboa seja tão pertinho de Lyon!

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