sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Primeiros Momentos: emoções à flor da pele

Esta foi a minha primeira semana de aula de verdade na Universidade. Até então, tinha tido somente reuniões de apresentação do curso, professores e matérias. Pude perceber que o curso será muito bom. Sofrido, mas vou aprender muito. Professores chiquérrimos, informatizados, com as aulas afiadas na ponta da língua. Compartilho com vocês alguns dos meus primeiros momentos, não muito glamurosos, como mestranda na França:

A semana começou com uma aula de Metodologia da Pesquisa. Desculpem-me os profissionais que lecionam esta matéria, mas é difícil curtir esta aula. Ela é, no mínimo, entediante. Isso em português! Em francês, não consigo nem definir. Então, no final da aula, depois de muito falar, o professor resolveu fazer uma pequena avaliação para saber o nível da turma. De um lado da folha, perguntas sobre os termos técnicos utilizados em uma pesquisa, do outro, exercícios de estatísticas. Bom, entreguei minha avaliação rindo, de nervoso. O primeiro lado, deixei em branco porque nem em português saberia responder e o outro, também, porque estudei estatística há mais de 10 anos atrás e fiz questão de esquecer tudo no dia seguinte da prova final. Mas sabia que já tinha visto aquelas grades cheias de números e letras em algum lugar...


Aula de Modelização e Simulação dos Processos Cognitivos: uma professora que fala super rápido e que dá aula sem olhar muito para a reação dos alunos. Tema da aula: Inteligência Artificial. Para fazer a introdução, ela começa do básico, fazendo uma rápida 'revisão' do funcionamento do neurônio artificial e depois passa alguns exercícios para a gente calcular o tempo de reação de um neurônio não-sei-o-quê dando os valores das variáveis... Opa! Espera aí! Inteligência Artificial? Neurônio Artificial? Ah! A turma deu a resposta em um coro. Ri, de nervoso. Então ela anuncia a importância disso tudo para a nossa aula de Informática "que será quando colocaremos em prática esses conhecimentos ao fazermos nossas programações". Programação, informática, eu? Tá bom! Ri.

O professor de Envelhecimento é a simpatia em pessoa. Diz que, nas suas aulas, os alunos trabalham muito. Então cada um terá que apresentar um tema e relacioná-los aos artigos que ele selecionou (textos em francês, inglês e, para quem quiser, em alemão, por que não?). Ele nos disse os dias das suas aulas e explicou que cada aluno teria 20 minutos para fazer a sua exposição. Pediu voluntários para o primeiro dia. Todos meus colegas olharam para baixo. Ele encontrou o meu olhar e interpretou meus olhos arregalados como os de uma pessoa muito empolgada e disse:
#tecla sap#
_ Você, mademoiselle, apresentará no primeiro dia!
_ Eu? No primeiro dia? - Pânico total!!! Continuei, rindo: Só se for em português!

É claro que ele disse que não, que ninguém me entenderia e tentou me encorajar, mas preferi gastar o meu francês convencendo-o a escrever meu nome no último dia de aula. Ufa!

Para terminar a primeira semana, aula de Psicologia Cognitiva! A professora cheia de energia passou seu verão preparando as aulas e treinando para dar o máximo de conteúdo em 1h e 45minutos. Ela fez um resumão sobre tudo o que eu já estudei de neurologia em toda a minha vida. Terminou sua conferência relacionando tudo isso à memória, à aprendizagem e ao sono.

Ela disse que se quisermos potencializar a nossa capacidade de aprendizagem deveremos dar preferência à repetição de um mesmo estímulo, mais do que a exposição a muitos estímulos ao mesmo tempo. Além disso, temos que dormir, pois o sono profundo é o melhor amigo da memória e da aprendizagem...

Confesso que a minha primeira semana me causou um certo pânico. Tive outras matérias em que tudo correu super bem, mas esses outros momentos... Escuto novamente aquela vozinha sábia que me acompanha nas horas difíceis e que me pede c-a-l-m-a. Tudo bem, não vou me desesperar, pelo menos na primeira semana. Contudo, além de calma, tenho que colocar em prática os ensinamentos acima de minha professora e o problema é que tenho vivido exatamente o oposto: muuuuuitos estímulos novos na universidade, muuuuita biennale de la danse, mudança de casa, tpm e um pernilongo fdp que mora aqui no quarto e que pertuba o meu sono!!! Êta se eu acho esse inseto...

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pão e Circo

1) As pessoas trabalham e pagam muitos impostos.
2) Com o dinheiro, vindo dos impostos, o governo mantém muitos museus, ou mesmo, dá uma ajuda financeira a muito deles.
3) O governo possui suas sedes administrativas nos edifícios mais chiques e bonitos da cidade.
4) O povo, que trabalha e paga seus impostos,  paga caro também para entrar nos museus e têm seus acessos interditados aos prédios públicos, os chiques, claro!
5) Estranho, não!?

Acho que foi pensando nisso, que há 27 anos atrás, um ministro da cultura francês criou a "Journée du Patrimoine", que inicialmente era o dia do patrimônio na França. A boa idéia foi expandida para um final de semana e pela Europa, celebrando a história do patrimônio coletivo.


Durante o sábado e o domingo passados as pessoas tiveram acesso ao prédios públicos, museus, jardins, ateliers, fortes, castelos, hospitais, igrejas, teatros, prefeituras, etc. Tudo o que é considerado 'patrimônio' teve suas portas abertas, mesmo aqueles que são administrados por particulares. A maioria dos 150 destinos de visita era gratuita com os guias incluídos.

Esse evento agitou o final de semana. A calmaria, quase que entediante, do domingão de Lyon foi substituída pelas ruas movimentadas, metrôs cheios e filas para todo lado.

Os franceses são orgulhosos do cuidado que eles têm com a sua história. Eles a preservam pois sabem que é um bem precioso e isso faz toda a diferença. Para eles, "o tempo não apaga os traços dos grandes Homens", mas é preciso cuidar. 


No Brasil, às vezes, basta dinheiro para substituir uma construção antiga, caindo aos pedaços, por um novíssimo prédio de escritórios... Uma pena, tanto pelo 'caindo aos pedaços' quanto pela eliminação de um vestígio da vida passada.

Ter acesso a esses patrimônios é um tipo de "circo" que deixa o povo contente, pelo menos um final de semana por ano, mas também é "pão", pois alimenta o nosso conhecimento, a nossa alma. Temos acesso livre e direto à história da humanidade, da qual fazemos parte.  Entramos em contato com as contribuições deixadas pelos artistas, escritores, políticos, homens de poder e construtores, pessoas  que deixaram suas marcas no mundo, seus tesouros para serem contemplados por todos. E que aprendamos com isso!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

La Biennale de la Danse

Há uma semana começou a Biennale de la Danse aqui em Lyon. Segundo o jornal Le Monde, "Lyon põe o mundo prá dançar" e é essa a sensação que tenho aqui. Na Biennale, há as aprensentações das companhias do mundo todo, há as oficinas para alunos, as conferências e os aulões nas praças para quem quiser chacoalhar o esqueleto.

Os espetáculos acontecem nos teatros, praças e parques. A cidade inteira abraça esta festa e as escolas, lojas, bares, restaurantes e cinemas também entram na dança.


Este evento é considerado o maior festival de dança do mundo. Os 400 funcionários da Biennale, dentre eles eu, trabalham para acolher 39 companhias de dança, 600 artistas e um público de centenas de milhares de espectadores.

Domingo, 300 mil pessoas se encantaram com o desfile de 4500 "amadores" da dança, que esbanjaram alegria nos quase 2 km de percurso. O tema do desfile foi "La vie en rose", que, segundo eles, em uma época de crise mundial, seria importante lembrarmos dos pequenos e grandes prazeres da vida.




A idéia do desfile é inspirada na nossa Sapucaí. Seu ponto final foi a maior praça da cidade e lá, depois de escutarmos uma apresentação de uma bateria de escola de samba do Rio de Janeiro, 7.999 pessoas dançaram uma coreografia, eu filmei. Foi lindo e emocionante! Não importava a idade, o sexo, o travamento do corpo, o importante era dançar! (Depois posto o vídeo. Preciso de um suporte técnico!)

Tenho que falar da importância que a dança brasileira tem aqui. Na quinta-feira passada, fui na noite de abertura estreiada pelo Ballet de Monte-Carlo. O mestre de cerimônia deu as boas vindas em françês, inglês e português! No seu discurso, citou a "revelação do Grupo Corpo" em Lyon. E, falando do Brasil, convidou Jomar Mesquita e a Juliana Macedo (Mimulus Cia. de Dança) para dançar La Vie en Rose, com samba no pé, claro. Apaixonados pelo nosso gingado, os franceses se derreteram... E eu também! Êêê saudade que dá!!!

Os trabalhos dos brasileiros, este ano representados por 4 companhias, são sempre muito bem quistos. Não é por nada não, mas molejo, energia e criatividade a gente tem de sobra!

A Biennale de la Danse é a grande responsável por eu ter escolhido Lyon como destino da minha mu-dança. Então, estou tentando aproveitar tudo ao máximo! Faço aulão, estou indo no maior número de espetáculos que consigo e ainda quero saber o que eles discutem sobre dança por aqui. Depois conto para vocês, porque agora tenho que ir! Tem um aulão de "Danças Latinas" esperando por mim na Place du Terreaux... Fui!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

De Mim para Mim mesma

Qual foi a última vez que você se colocou em primeiro plano na sua própria vida? Qual foi a última vez que você criou metas para você mesmo? Qual foi a última vez que você quis algo que parecia impossível, se olhou no espelho e disse: "Eu quero! Eu posso! Eu mereço! Eu vou!"?

Há um ano atrás eu fiz isso. Permiti-me sonhar e corri atrás do meu sonho sem saber ao certo para onde ele me levaria.

Então, hoje, eu estava sentada em um auditório, no meio de uns 200 estudantes, escutando as boas vindas, em francês, do coordenador do mestrado da Universidade de Lyon. Consegui enxergar a cena em que eu participava. Olhei para tudo bem forte, para deixar esse momento registrado na minha memória. Fui a única testemunha da minha felicidade, do meu sorriso, da minha satisfação de realizar dois sonhos: 1-aprender francês (sempre achei lindo e chiquérrimo!) e 2-fazer um mestrado. Tudo bem! Disse no último post que ainda não sou uma 'expert', mas, voilà, entendi quase tudo. Sei também que estou falando sobre o primeiro dia de dois longos anos da minha vida... Mas tudo começa de um começo. É ou não é?

Quando falo dois L-O-N-G-O-S A-N-O-S, curto cada letra, porque quero viver intensamente cada momento. Permiti-me voltar a ser estudante, mas agora, mais madura e mais esperta do que quando o fui há uma década atrás.

Tudo o que eu não aproveitei no meu tempo de faculdade, quero aproveitar. Hoje fiz visita guiada pelo Campus, visita guiada pela biblioteca. Interei-me de todos os serviços oferecidos na "casa do estudante". Tinha direito a uma agenda? Quero uma agenda, obrigada! Direito a um chaveiro? Quero, merci! Camisinha com a logomarca da Universidade? Rsrsrs! Quero também! Então, quer se inscrever para fazer parte de um grupo de estudantes que vão a museus, teatros e espetáculos de dança juntos? Claro que eu quero! Pode colocar meu nome aí, s'il te plaît! Confesso que me diverti como uma criança conhecendo a sua nova escola...


Tem um ditado que diz que "a qualidade da sua vida depende da qualidade dos seus objetivos". Penso nisso frequentemente.

Hoje estou me sentindo mais leve, mais plena. Estou feliz comigo mesma. Feliz por estar cuidando de mim, feliz por ter me dado esse presente: meu Presente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Aprendendo a Língua Francesa II: dificuldades mais complexas

Agora já faz quase 8 meses que atravessei o Atlântico para morar aqui, em Lyon, França. Diferenças culturais à parte, meu grande desafio até então era a aprendizagem da língua francesa. Cheguei aqui com uma noção de francês. Em abril do ano passado, comecei a estudar sozinha quando ganhei o livro com cd da Folha de São Paulo (15 minutos de Francês). Depois, de agosto a novembro fiz aulas particulares e, em dezembro, um curso intensivo da Aliança Francesa.

Bom, mas como disse, isso me deu uma noção básica, tão básica que o meu primeiro contato telefônico com madame Françoise, para lhe avisar que eu tinha perdido a minha conexão Paris-Lyon, no desespero, foi feito em inglês.

E ela foi o meu primeiro impacto ao chegar em Lyon. Meu primeiro lar foi a sua casa, o ninho de uma francesa que adora falar e que consegue falar umas 200 palavras por minuto sem respirar. Mas, quando você não está acostumada a escutar uma língua, você acha que tudo é uma palavra só. E é claro que eu ficava com cara de interrogação e que da minha boca só saia uma interjeição universal: Ã? Aí, ela recomeçava mais lentamente e logo acelerava de novo e eu, para finalizar meu sofrimento, acabava com aquele sorrizinho de nada, fingindo que havia compreendido tudo. Início difícil!

O curso de francês da universidade me ajudou demais. Também estudei muito em casa ao fazer 1.400 exercícios extras contidos nos livros "Grammaire Progressive du Français", nível básico, intermediário e avançado. Fora um curso de férias e de fonética.

Acham que eu estou craque no francês, ? Melhorei muuuuiiiito. A convivência diária com os nativos contribuíu imensamente com essa melhora, como disse, anteriormente, em um outro post. Contudo, digamos que, até agora, eu tenha incorporado, de verdade, o básico da língua. Não estou exagerando e nem sendo muito exigente comigo mesma.

Vou explicar: depois de quase 8 meses e muito esforço, consigo compreender muito bem o que as pessoas falam, os filmes e, um pouco menos, as músicas. Digamos que meu ouvido tenha se acostumado com o francês. O que antes, para mim, era um bloco de sons transformou-se em palavras: nomes, verbos, advérbios, preposições, gírias, expressões. O meu vocabulário ampliado mais o meu conhecimento a respeito das conjugações verbais, sintaxe e francês familiar formaram meus novos arquivos que me permitem compreender o que escuto. Ler textos e livros também se tornou muito mais fácil e prazeiroso.

Entretanto, a compreensão oral e a leitura fazem parte de um processo de aprendizagem passiva. É claro que eu faço um esforço mental para compreender, mas é como se os estímulos chegassem até mim e meu trabalho seria o de classificá-los e distribuí-los nos arquivos. Simples, não?


Já escrever e falar fazem parte de um processo ativo. Para ser bem sucedida em expressar qualquer idéia, eu preciso acessar os meus novos arquivos, cruzar as informações para escolher as melhores palavras, a melhor concordância nominal e verbal dentro da sintaxe da frase. A tudo isso, na escrita, acrescento o cuidado com a ortografia e na fala, com a pronúcia, inclusive faço biquinho e pronuncio sons que não somos habituados no português. Aí, sai de mim a idéia a ser expressada. Um parto!

Na minha auto avaliação, hoje consigo me expressar muito bem quando falo utilizando o presente ou o futuro. Gerúndio, infinitivo, pretérito do indicativo, discurso indireto? Ok. Utilizar as formas do passado está cada dia mais fácil, mas ainda faço esforço para acertar as concordâncias verbais. Mas agora, as preposições, o gênero das palavras, o tal do subjuntivo e as hipóteses são as pedras no meu sapato. Quando vou escrever em francês, ainda tenho mais tempo para refletir, mas quando estou falando, sou capaz de quebrar totalmente o rítmo de uma conversa e começar a fazer perguntas de gramática. É duro, conversar comigo! Eu sei. Haja paciência!

Hoje falo francês, mas é como se eu ainda utilizasse os trilhos do português. Isso dificulta a minha fluência. Sei também que a minha vontade de falar corretamente recrimina meus erros que recriminam a minha fala. Já me aconselharam a falar de uma maneira mais simples ou a pensar em francês. Que ótimo! Eu até que tento, mas isso, ainda, não é uma questão de escolha.

Uma vozinha dentro de mim me consola: "Calma, Carolina, isso tudo vai melhorar!" A partir do momento em que meus novos arquivos forem deixando de ser novos e passarem a ser mais usados, vou incorporar a língua francesa e todo o esforço que faço hoje será coisa do passado, mas fica aqui o seu registro.

Por que toda essa reflexão e esse desespero em aprender francês? Porque estudar francês era a minha primeira etapa aqui em Lyon. Tempo esgotado! Acabou a mamata! Segunda-feira, dia 6 de setembro, inicio a segunda etapa: começam minhas aulas de mestrado em Psicologia Cognitiva e volto a trabalhar, tudo isso em francês! Mas esses são outros assuntos...

(Leia também no blog: Aprendendo a Língua Francesa)

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