Se foi loucura ou não pensar em sair da minha vida estabelecida no Brasil e vir fazer um mestrado na França, isso eu ainda não sei. Só sei que eu pensei seriamente nesta mudança de vida numa manhã de setembro e vim morar aqui três meses e meio depois. Três meses e meio para fechar vários ciclos no Brasil e me preparar para o desconhecido na França.
Concordo em colocar um certo grau de loucura nessa atitude quando lembro que eu cheguei aqui em pleno inverno de janeiro me comunicando praticamente em inglês, sem conhecer nada nem ninguém.
O objetivo deste ato insano seria fazer um mestrado que começaria em setembro. Logo, eu teria 7 meses para aprender a língua francesa, porque aqui, os cursos são em francês e os estudantes estrangeiros normalmente têm que fazer uma prova para comprovar um nível intermediário da língua. ( Não fiz essa prova pois meu curso de francês foi na própria Universidade).
Em junho de 2010, me inscrevi no primeiro ano de mestrado (
Master 1) de Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia. Vocês podem até achar que não, mas a seleção é relativamente simples quando se trata de qualquer Licença (em qualquer curso) ou do primeiro ano de Mestrado. Para eu ser aceita, bastou fornecer minhas notas do vestibular (este é considerado como o equivalente ao
baccalauréat, que é uma prova que eles fazem antes de entrar para a Universidade), meus diplomas (graduação e pós-graduação) e seus respectivos históricos de notas (claro que tudo traduzido por um tradutor juramentado), uma carta de intenção e um formulário preenchido.
A Universidade onde eu queria fazer o Mestrado é pública, sendo assim, se tem vaga e se você tem estudos considerados "equivalentes", em tempo e assunto, você é aceito. É mais difícil você entrar no primeiro ano de um curso de qualquer Licença do que no último ano ou no primeiro ano de mestrado. Isso porque as Universidades reservam as vagas dos primeiros anos para os alunos que estudaram nas escolas da região. Os primeiros anos são lotados e os últimos têm vagas por causa da evasão universitária.
Já no segundo ano de Mestrado, tudo muda. De repente, pela primeira vez na vida de um estudante francês, aparece um funil e bem estreito. Para vocês terem noção, há cursos de M2 em que são oferecidos apenas 30% do número de vagas do M1. Além disso, o aluno deve escolher se ele quer um "
Master Pro" (mestrado profissionalizante) ou "
Master Recherche" (mestrado de pesquisa - que é o equivalente ao mestrado no Brasil). No caso da psicologia, somente com um Master Pro que o aluno receberá o título de psicólogo e que poderá atuar no campo de trabalho. Com um
Master Recherche, ele faz sua pesquisa, se prepara para o Doutorado e sua vida profissional acadêmica.
Vocês podem se perguntar:
1) E se o aluno quiser somente fazer a licença? Vai trabalhar em certos empregos que a exigência é somente no nível de licença, mas não vai ser psicólogo.
2) E o que acontece quando um aluno de psicologia que estudou seus anos de licença, fez seu primeiro ano de mestrado e não consegue passar pelo funil e ser aceito no M2? Ele pode repetir o M1 até conseguir entrar no M2 (aumentando suas notas e fazendo cada vez mais estágios), ou fazer como grande parte dos estudantes: desistir e "ir trabalhar no McDonald's", como brincavam meus colegas...
Não... O ambiente do primeiro ano de mestrado realmente não é engraçado e nem justo. A concorrência é presente e explicitada pelos alunos e professores desde o primeiro dia de aula. A seleção para o segundo ano será feita a partir das notas do
master 1 (ou notas de cursos equivalentes de outros países), de um projeto de estágio (
master pro) ou de pesquisa (
master recherche), carta de intenção,
currículum vitae, formulário preenchido (ao todo, 20 páginas escritas por você!!!). Além disso, você tem que encontrar um professor que se simpatize com seu projeto e queira te orientar.
Como eu já sou psicóloga, meu único interesse era fazer o
Master 2 Recherche. Tomei conhecimento da existência desse tal de funil somente quando estava bem na frente dele. Mas, ao mesmo tempo, fiquei sabendo que meu curso de Psicologia do Brasil e minha pós-graduação em Psicomotricidade serviriam como meus equivalentes de M1, e é claro que minhas notas no Brasil, em português, eram melhores do que minhas notas de M1. Então, ao postular para o
Master 2, entrei com meus diplomas e históricos brasileiros, UFA! Por outro lado, estava meio apreensiva porque queira fazer não mais o master 2 em Psicologia Cognitiva e sim, em Psicologia da Saúde e do Desenvolvimento, ou seja, departamento novo, tudo novo, de novo!
Fiquei três meses estudando muito, desenvolvendo e escrevendo um projeto de pesquisa que unisse a psicologia do desenvolvimento, a dança e a educação. Ralei muito e todo o meu esforço valeu à pena! Mas sei que o trabalho que tive foi pouco em comparação com o trabalho que terei nos meus próximos meses...

Loucura ou não, Master 2, aqui estou!!! E se você quer saber qual é
L'influence de la Composition Chorégraphique Collective sur le processus de décentration chez des filles de 7 a 11 ans, ou melhor, a Influêncida da Composição Coreográfica Coletiva no processo de descentração de meninas de 7 a 11 anos, aguarde os resultados da minha pesquisa!