terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Sistema de Ensino Francês: verdades para quem quer ler e enxergar


Sobre meus óculos, a "Alegoria da Caverna" e o Sistema de Ensino na França:



Há um mês uso óculos. "Astigmatismo" foi o diagnóstico que o médico deu para o meu enxergar meio embaçado, sem foco preciso, segundo ele. Leitura Corporal à parte, o fato é que não percebia que estava com algum problema. Só fui convencida dele quando coloquei meus óculos pela primeira vez. A sensação que tive foi que a imagem ao meu redor de 4 megapixels tinha passado para 18. Tudo tem um contorno definido! O mundo ficou mais nítido! Adaptei-me instantaneamente às minhas novas lentes.

Mais focada e aqui em Lyon, preparei-me para a minha semana intensa de provas. Muita matéria, leituras, exercícios... Nada em português. Quando a tão "esperada e temida" semana dos alunos chegou, em um dia, tivemos 3 provas dissertativas, com um intervalo de 10 minutos entre elas: uma às 8hs, outra às 10hs e a última às 12 horas! Meu cérebro conseguiu descansar só 3 dias depois...

Minha fase de enamoramento com a França e seu Sistema de Ensino acabou aqui! Não é nada grave, nada que me faça mudar de planos. É simplesmente o efeito dos meus óculos e da nova capacidade de enxergar o mundo mais nitidamente.

Tudo isso me faz lembrar do texto da "Alegoria da Caverna", onde Platão, o filósofo e autor, nos faz imaginar uma situação na qual seres humanos, que nasceram dentro de uma caverna, lá viviam suas vidas acorrentados. Eles, sempre de costas para a abertura da caverna, só enxergavam as sombras das pessoas que viviam do lado de fora, assim como, escutando as suas vozes, pensavam que eram os sons produzidos pelas mesmas. Para esses seres humanos de Platão, a realidade era a sombra. Ele pede para seu leitor imaginar o que aconteceria se um deles se libertasse das correntes e fosse para o exterior da caverna, ao encontro da luz. Ele veria a real realidade. Quais riscos ele correria se resolvesse voltar para dentro da caverna e dissesse para seus companheiros que aquela realidade das sombras não era a verdadeira? Seria ignorado? Tido como mentiroso? Louco? Seria perseguido e morto? - É o tipo de texto que nos ajuda a refletir diante de muitas situações da nossa vida...

Não sei como vou explicar isso à vocês, mas, infelizmente, acho que a Universidade francesa enxerga sombras e jura que é a única realidade possível. Minha angústia a esse respeito cresce não só porque agora sou uma estudante desse Sistema, mas, principalmente, porque sou uma estudante de mestrado em Psicologia Cognitiva e Neuropsicologia. Estudo o cérebro a fundo, as funções cerebrais, tim-tim por tim-tim. Estudo às disfunções, doenças, demências. Mas o que me deixa muito feliz é estudar as funções cerebrais no enfoque da aprendizagem e de sua potencialização.

Dentro dos laboratórios da Universidade, quando vamos fazer uma pesquisa, procuramos identificar os fatores que podem alterar o resultado e, na medida do possível, controlá-los. A Universidade aqui de Lyon é uma referência mundial em pesquisas nesta área. Estuda-se muito sobre a memória, as bases dos processos de aprendizagem e, consequentemente, do processo de educação. Muitas das teorias que estudamos no Brasil saem daqui, quentinhas, diretamente do forno.

Entretanto, a França, muitas vezes considerada o país das incongruências, faz jus à sua fama e peca ao deixar as teorias dentro dos livros e bem longe da prática. Porque eu pergunto: alguém tem dúvida que a minha capacidade cognitiva durante a terceira prova estaria prejudicada? E a capacidade do aluno que foi mal na primeira prova e que teve 10 minutos para respirar antes de começar a segunda? Isso sem pensar na terceira, quando eu já estava até vesga. E quem estava com vontade de ir no banheiro?

Nas provas dissertativas não é só o conteúdo que é avaliado, mas também a maneira como você consegue fazer uma ligação entre fatos, causas e efeitos, a maneira como expressa suas idéias, considerando inclusive o domínio da língua escrita. Alguém duvida que uma estudante estrangeira que estuda francês há um ano poderia ter mais dificuldades para desenvolver suas idéias? Nada dessa breve análise superficial é levado em consideração, nem mesmo por meus professores, grandes experts nesses assuntos...

O exemplo da minhas 3 provas durante uma manhã é um dentre váaaaaarios que poderia citar e é por isso que considero a França como o país da gastronomia "do conhecimento sobre educação". A "cozinha" é a Universidade, mais especificamente os departamentos envolvidos nas pesquisas das Ciências Cognitivas. Comidas saborosas, nutritivas e novas receitas saem daqui. O problema todo é que grande parte da nação e meus professores vivem de regime! Não aproveitam aquilo que produzem. Êta desperdício!

E se eu questiono, reclamo e digo a meus colegas ou professores que há uma realidade diferente das sombras, uma realidade onde a flexibilidade e a criatividade e o contato humano são essenciais, poucos são aqueles que acreditam nessa luz. Da maioria, recebo sorrisos amarelos bem amarelos. É o lado ruim de se ter uma longa história onde as pessoas se acorrentam em tradições inúteis.

Há mais ou menos 2 anos, houve uma greve de professores aqui, de pessoas que enxergavam o que eu estou enxergando só agora, mas que foram vencidos por seus colegas e alguns governantes, acomodados demais para querer ter o trabalho de mudar. Ainda bem que esses primeiros existem. Que eles não desistam da necessária mudança! Ainda tenho esperança!

A verdade é que me decepcionei, mas só na minha cabeça é que algum dia existiu uma França "ideal", ou na sua também? Na "real", estou aqui para estudar, então, estudo e muito! É meu foco. Aqui tem comida boa, tenho fome e vou me nutrir. Agora, se tem gente que quer viver de regime ou de baguette...


4 comentários:

Sol Wilsy Aguiar disse...

Gosto de uma frase da minha mãe, que é psicopedagoga: Existem professores e professores....

Ela sempre me dizia isso quando eu não me adaptava a um sistema de ensino ou professor. Eu sempre tinha minha críticas e revoltas, como tenho até hoje sendo apenas uma mera pós graduanda...

Quantos módulos eu desejei estar ensinando ao invés de estar assistindo... e revolucionar a maneira de entendimento das minhas colegas de sala... E os métodos de avaliação. Talvez, o que eu pense em mudar não seja exatamente o que alguns daqueles alunos que estão comigo precisem ou desejem.

No entanto, feliz fiquei, quando propus a modificação da avaliação dos TCCs da FCMMG. O Sistema de avaliação por lá hoje tem dedinho meu e os professores ficaram muito felizes com isso.

Quanto aos óculos Carol... eu tenho astigmatismo e miopia que cada dia crescem mais e mais... nunca gostei de usá-los. Mas a necessidade faz a hora. 3 graus não é brincadeira!!!
Óculos nos ajuda a enxergar muito além do que vemos....

Beijos ensolarados

Carol disse...

Oi, Sol! Na verdade, há dificuldades em todos os lugares, né!? Mas só depois desta experiência aqui é que eu me percebo que estudei em Instituições muito boas aí no Brasil. Dá saudades do calor humano, principalmente... Contudo, sei que é necessário me adaptar com esta nova realidade, mas me 'conformar' (entrar nesta forma), nunca!
Bjos

giulia b disse...

Isso me lembrou uma tirinha da Turma da Mônica... http://www.monica.com.br/comics/piteco/pag1.htm

Carol disse...

É, Giulia!
Tudo a ver!
Seja bem vinda!

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