Estou aqui em Lyon, há quase dois meses, praticamente por conta de aprender a língua francesa.
"Que vida mansa" - vocês podem pensar. Realmente, quando eu penso que estou tendo a oportunidade de morar na França, numa cidade maravilhosa como Lyon, conhecendo pessoas diferentes e tendo experiências tão especiais, parece que ainda estou sonhando. Entretanto, com os pés no chão,
la vie não é tão
rose...
Cheguei em uma cidade na qual não conhecia ninguém. Estive aqui em outubro do ano passado, mas fiquei menos de dois dias, então, tinha só uma pequena noção da cidade. Não sabia onde ficava nada e mal me comunicava em francês. Sentia-me como uma "caloura" no primeiro dia de faculdade, só que em todos os lugares que eu ia e durante 24 horas por dia.
Tudo bem. Sobrevivi a esse primeiro momento. Ter vindo morar na casa da madame Françoise me ajudou muito. Além dela ser professora de francês, havia mais três habitantes: um japonês, um italiano e um árabe. Língua oficial da casa: francês.
Contudo, aprender uma outra língua não é nada simples. Graças aos meus pais e minha avó, falo inglês (ou falava porque agora misturo tudo). Comecei a estudar essa língua aos 8 anos. Mas no Brasil, escutamos músicas, vemos filmes, falamos muitas palavras em inglês no dia a dia.
O mesmo não acontece com o francês. Há um ano atrás, não sabia contar de um até dez. O que sabia de francês era a nomenclatura de balé clássico (que agora, para mim, já ganhou um novo sentido).
Mas vamos pensar em como acontece a aquisição da língua materna. Normalmente, um bebê nasce já inserido em uma cultura onde há uma língua oficial. Há estudos que dizem que mesmo dentro do útero já é iniciado o processo de aprendizagem da fala. Depois que nasce, o bebê passa a escutar tudo ao seu redor. Depois de 3 meses já começa a ensaiar alguns sons. Depois de mais ou menos 2 anos observando, escutando a língua materna, a criança inicia a sua comunicação verbal, dizendo sons que se parecem com palavras, dizendo palavras que passam a ser acompanhadas por verbos, e aos poucos nascem as pequenas frases. Pronto! Não precisa mais só chorar ou apontar para as coisas ou para os lugares. Com três anos uma criança já é capaz de contar o que aconteceu na escola. Com quatro, já é capaz de surpreender um adulto.
A linguagem e o pensamento caminham de mãos dadas. A partir do momento em que a criança adquire a linguagem, ela passa a desenvolver mais o seu pensamento, que desenvolve a linguagem, que desenvolve o pensamento... E assim, depois de mais ou menos 11 anos de vida, a criança passa a ter um pensamento complexo trabalhando com hipóteses. Nessa época, já adquiriu muito vocabulário e é capaz de utilizar todos os tempos e modos verbais no seu discurso.
Vivi isso com a língua portuguesa. O francês é, muitas vezes, semelhante ao português. Ambos têm a sua origem no latim. Só que eu nunca tenho certeza se a palavra que eu quero utilizar é semelhante ou não. Além disso, há as conjugações verbais, as exceções, os casos especiais, as letras que estão escritas mas que não são pronunciadas, a fonética...
Meu problema é:
- O francês não é a minha língua materna;
- Não sou um bebê e tenho muito mais de 2 anos;
- Não tenho um tempo de dois anos para fazer uma pesquisa de campo;
- Não posso ficar mais me comunicando por sons que se parecem com palavras, nem só com algumas palavras, ou pequenas frases;
- Preciso de todos os tempos e quase todos os modos verbais para exprimir o meu raciocínio complexo;
- Preciso de muuuuuuiiiito vocabulário.
Não dá mais para eu conversar, dizendo apenas o meu nome, que eu sou brasileira, a minha profissão e o que eu estou fazendo perdida aqui em Lyon. E não dá mais para ficar com aquela cara de retardada quando a pessoa quer conversar para além desse assunto. A pessoa te olha e acha que você não tem opinião formada a respeito de nada ou que você está com essa cara de retardada porque você realmente é uma. Aí, no desespero eu solto uma explicação:
#tecla sap#
_ Eu não sou estúpida. Eu não compreendi o que você falou. Eu não sei falar bem francês, ainda.
Minha solução:
- Fazer um ótimo curso de francês;
- Estudar muuuuuuuiiiiiiito;
- Ficar atenta nas ruas escutando as conversas;
- Escutar música, assistir filmes, ver televisão, escutar rádio;
- Criar situações para que eu possa falar, falar e falar.
Esse último ítem é interessante, porque temos a tendência a formar grupos de iguais. Os brasileiros com os brasileiros, os chineses com os chineses, os americanos com os americanos...
Para mudar esse hábito, que traz conforto e segurança, é preciso se arriscar, se colocar à prova. A própria Universidade onde faço o curso de francês, ajuda o aluno nisso. Podemos fazer vários cursos de danças e esportes em geral, pela quantia de 20 euros por semestre. A maioria dos alunos é composta por francêses. Há um setor especializado que auxilia no intercâmbio de línguas ( um aluno francês querendo aprender português, ou um americano querendo aprender chinês, um brasileiro querendo aprender francês e um chinês querendo aprender inglês), que formam os pares da melhor maneira possível.
Fora da universidade, você encontra, por exemplo, sites como
http://www.livemocha.com/ que é de um curso de idiomas on line e gratuito, onde há uma interação entre os interessados em praticar a conversação e a escrita. Fora do mundo virtual, há lugares onde as pessoas se encontram para as "trocas de conhecimento". Aqui em Lyon, tem um café chamado "Café Polyglotta" ou "Café Linguistique" onde isso é possível.
Mas o melhor de tudo, é se colocar em situações de trocas verdadeiras. O meu final de semana em
Saint Étienne favoreceu meu encontro com vários franceses, dentre eles, minha nova amiga francesa interessada em aprender português para fazer um curso em Portugal.
Saindo com ela, conheci mais pessoas interessantes e francesas,
que me apresentaram mais pessoas interessantes e francesas...
Língua oficial: francês! E assim, vou seguindo em frente.
PS.: Mas não há nada como falar em português com minha família e amigos brasileiros, viu!!!
(leia também no Blog: Aprendendo a Língua Francesa II - dificuldades mais complexas)
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