quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Pão e Circo

1) As pessoas trabalham e pagam muitos impostos.
2) Com o dinheiro, vindo dos impostos, o governo mantém muitos museus, ou mesmo, dá uma ajuda financeira a muito deles.
3) O governo possui suas sedes administrativas nos edifícios mais chiques e bonitos da cidade.
4) O povo, que trabalha e paga seus impostos,  paga caro também para entrar nos museus e têm seus acessos interditados aos prédios públicos, os chiques, claro!
5) Estranho, não!?

Acho que foi pensando nisso, que há 27 anos atrás, um ministro da cultura francês criou a "Journée du Patrimoine", que inicialmente era o dia do patrimônio na França. A boa idéia foi expandida para um final de semana e pela Europa, celebrando a história do patrimônio coletivo.


Durante o sábado e o domingo passados as pessoas tiveram acesso ao prédios públicos, museus, jardins, ateliers, fortes, castelos, hospitais, igrejas, teatros, prefeituras, etc. Tudo o que é considerado 'patrimônio' teve suas portas abertas, mesmo aqueles que são administrados por particulares. A maioria dos 150 destinos de visita era gratuita com os guias incluídos.

Esse evento agitou o final de semana. A calmaria, quase que entediante, do domingão de Lyon foi substituída pelas ruas movimentadas, metrôs cheios e filas para todo lado.

Os franceses são orgulhosos do cuidado que eles têm com a sua história. Eles a preservam pois sabem que é um bem precioso e isso faz toda a diferença. Para eles, "o tempo não apaga os traços dos grandes Homens", mas é preciso cuidar. 


No Brasil, às vezes, basta dinheiro para substituir uma construção antiga, caindo aos pedaços, por um novíssimo prédio de escritórios... Uma pena, tanto pelo 'caindo aos pedaços' quanto pela eliminação de um vestígio da vida passada.

Ter acesso a esses patrimônios é um tipo de "circo" que deixa o povo contente, pelo menos um final de semana por ano, mas também é "pão", pois alimenta o nosso conhecimento, a nossa alma. Temos acesso livre e direto à história da humanidade, da qual fazemos parte.  Entramos em contato com as contribuições deixadas pelos artistas, escritores, políticos, homens de poder e construtores, pessoas  que deixaram suas marcas no mundo, seus tesouros para serem contemplados por todos. E que aprendamos com isso!

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

La Biennale de la Danse

Há uma semana começou a Biennale de la Danse aqui em Lyon. Segundo o jornal Le Monde, "Lyon põe o mundo prá dançar" e é essa a sensação que tenho aqui. Na Biennale, há as aprensentações das companhias do mundo todo, há as oficinas para alunos, as conferências e os aulões nas praças para quem quiser chacoalhar o esqueleto.

Os espetáculos acontecem nos teatros, praças e parques. A cidade inteira abraça esta festa e as escolas, lojas, bares, restaurantes e cinemas também entram na dança.


Este evento é considerado o maior festival de dança do mundo. Os 400 funcionários da Biennale, dentre eles eu, trabalham para acolher 39 companhias de dança, 600 artistas e um público de centenas de milhares de espectadores.

Domingo, 300 mil pessoas se encantaram com o desfile de 4500 "amadores" da dança, que esbanjaram alegria nos quase 2 km de percurso. O tema do desfile foi "La vie en rose", que, segundo eles, em uma época de crise mundial, seria importante lembrarmos dos pequenos e grandes prazeres da vida.




A idéia do desfile é inspirada na nossa Sapucaí. Seu ponto final foi a maior praça da cidade e lá, depois de escutarmos uma apresentação de uma bateria de escola de samba do Rio de Janeiro, 7.999 pessoas dançaram uma coreografia, eu filmei. Foi lindo e emocionante! Não importava a idade, o sexo, o travamento do corpo, o importante era dançar! (Depois posto o vídeo. Preciso de um suporte técnico!)

Tenho que falar da importância que a dança brasileira tem aqui. Na quinta-feira passada, fui na noite de abertura estreiada pelo Ballet de Monte-Carlo. O mestre de cerimônia deu as boas vindas em françês, inglês e português! No seu discurso, citou a "revelação do Grupo Corpo" em Lyon. E, falando do Brasil, convidou Jomar Mesquita e a Juliana Macedo (Mimulus Cia. de Dança) para dançar La Vie en Rose, com samba no pé, claro. Apaixonados pelo nosso gingado, os franceses se derreteram... E eu também! Êêê saudade que dá!!!

Os trabalhos dos brasileiros, este ano representados por 4 companhias, são sempre muito bem quistos. Não é por nada não, mas molejo, energia e criatividade a gente tem de sobra!

A Biennale de la Danse é a grande responsável por eu ter escolhido Lyon como destino da minha mu-dança. Então, estou tentando aproveitar tudo ao máximo! Faço aulão, estou indo no maior número de espetáculos que consigo e ainda quero saber o que eles discutem sobre dança por aqui. Depois conto para vocês, porque agora tenho que ir! Tem um aulão de "Danças Latinas" esperando por mim na Place du Terreaux... Fui!

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

De Mim para Mim mesma

Qual foi a última vez que você se colocou em primeiro plano na sua própria vida? Qual foi a última vez que você criou metas para você mesmo? Qual foi a última vez que você quis algo que parecia impossível, se olhou no espelho e disse: "Eu quero! Eu posso! Eu mereço! Eu vou!"?

Há um ano atrás eu fiz isso. Permiti-me sonhar e corri atrás do meu sonho sem saber ao certo para onde ele me levaria.

Então, hoje, eu estava sentada em um auditório, no meio de uns 200 estudantes, escutando as boas vindas, em francês, do coordenador do mestrado da Universidade de Lyon. Consegui enxergar a cena em que eu participava. Olhei para tudo bem forte, para deixar esse momento registrado na minha memória. Fui a única testemunha da minha felicidade, do meu sorriso, da minha satisfação de realizar dois sonhos: 1-aprender francês (sempre achei lindo e chiquérrimo!) e 2-fazer um mestrado. Tudo bem! Disse no último post que ainda não sou uma 'expert', mas, voilà, entendi quase tudo. Sei também que estou falando sobre o primeiro dia de dois longos anos da minha vida... Mas tudo começa de um começo. É ou não é?

Quando falo dois L-O-N-G-O-S A-N-O-S, curto cada letra, porque quero viver intensamente cada momento. Permiti-me voltar a ser estudante, mas agora, mais madura e mais esperta do que quando o fui há uma década atrás.

Tudo o que eu não aproveitei no meu tempo de faculdade, quero aproveitar. Hoje fiz visita guiada pelo Campus, visita guiada pela biblioteca. Interei-me de todos os serviços oferecidos na "casa do estudante". Tinha direito a uma agenda? Quero uma agenda, obrigada! Direito a um chaveiro? Quero, merci! Camisinha com a logomarca da Universidade? Rsrsrs! Quero também! Então, quer se inscrever para fazer parte de um grupo de estudantes que vão a museus, teatros e espetáculos de dança juntos? Claro que eu quero! Pode colocar meu nome aí, s'il te plaît! Confesso que me diverti como uma criança conhecendo a sua nova escola...


Tem um ditado que diz que "a qualidade da sua vida depende da qualidade dos seus objetivos". Penso nisso frequentemente.

Hoje estou me sentindo mais leve, mais plena. Estou feliz comigo mesma. Feliz por estar cuidando de mim, feliz por ter me dado esse presente: meu Presente.

sábado, 4 de setembro de 2010

Aprendendo a Língua Francesa II: dificuldades mais complexas

Agora já faz quase 8 meses que atravessei o Atlântico para morar aqui, em Lyon, França. Diferenças culturais à parte, meu grande desafio até então era a aprendizagem da língua francesa. Cheguei aqui com uma noção de francês. Em abril do ano passado, comecei a estudar sozinha quando ganhei o livro com cd da Folha de São Paulo (15 minutos de Francês). Depois, de agosto a novembro fiz aulas particulares e, em dezembro, um curso intensivo da Aliança Francesa.

Bom, mas como disse, isso me deu uma noção básica, tão básica que o meu primeiro contato telefônico com madame Françoise, para lhe avisar que eu tinha perdido a minha conexão Paris-Lyon, no desespero, foi feito em inglês.

E ela foi o meu primeiro impacto ao chegar em Lyon. Meu primeiro lar foi a sua casa, o ninho de uma francesa que adora falar e que consegue falar umas 200 palavras por minuto sem respirar. Mas, quando você não está acostumada a escutar uma língua, você acha que tudo é uma palavra só. E é claro que eu ficava com cara de interrogação e que da minha boca só saia uma interjeição universal: Ã? Aí, ela recomeçava mais lentamente e logo acelerava de novo e eu, para finalizar meu sofrimento, acabava com aquele sorrizinho de nada, fingindo que havia compreendido tudo. Início difícil!

O curso de francês da universidade me ajudou demais. Também estudei muito em casa ao fazer 1.400 exercícios extras contidos nos livros "Grammaire Progressive du Français", nível básico, intermediário e avançado. Fora um curso de férias e de fonética.

Acham que eu estou craque no francês, né? Melhorei muuuuiiiito. A convivência diária com os nativos contribuíu imensamente com essa melhora, como disse, anteriormente, em um outro post. Contudo, digamos que, até agora, eu tenha incorporado, de verdade, o básico da língua. Não estou exagerando e nem sendo muito exigente comigo mesma.

Vou explicar: depois de quase 8 meses e muito esforço, consigo compreender muito bem o que as pessoas falam, os filmes e, um pouco menos, as músicas. Digamos que meu ouvido tenha se acostumado com o francês. O que antes, para mim, era um bloco de sons transformou-se em palavras: nomes, verbos, advérbios, preposições, gírias, expressões. O meu vocabulário ampliado mais o meu conhecimento a respeito das conjugações verbais, sintaxe e francês familiar formaram meus novos arquivos que me permitem compreender o que escuto. Ler textos e livros também se tornou muito mais fácil e prazeiroso.

Entretanto, a compreensão oral e a leitura fazem parte de um processo de aprendizagem passiva. É claro que eu faço um esforço mental para compreender, mas é como se os estímulos chegassem até mim e meu trabalho seria o de classificá-los e distribuí-los nos arquivos. Simples, não?


Já escrever e falar fazem parte de um processo ativo. Para ser bem sucedida em expressar qualquer idéia, eu preciso acessar os meus novos arquivos, cruzar as informações para escolher as melhores palavras, a melhor concordância nominal e verbal dentro da sintaxe da frase. A tudo isso, na escrita, acrescento o cuidado com a ortografia e na fala, com a pronúcia, inclusive faço biquinho e pronuncio sons que não somos habituados no português. Aí, sai de mim a idéia a ser expressada. Um parto!

Na minha auto avaliação, hoje consigo me expressar muito bem quando falo utilizando o presente ou o futuro. Gerúndio, infinitivo, pretérito do indicativo, discurso indireto? Ok. Utilizar as formas do passado está cada dia mais fácil, mas ainda faço esforço para acertar as concordâncias verbais. Mas agora, as preposições, o gênero das palavras, o tal do subjuntivo e as hipóteses são as pedras no meu sapato. Quando vou escrever em francês, ainda tenho mais tempo para refletir, mas quando estou falando, sou capaz de quebrar totalmente o rítmo de uma conversa e começar a fazer perguntas de gramática. É duro, conversar comigo! Eu sei. Haja paciência!

Hoje falo francês, mas é como se eu ainda utilizasse os trilhos do português. Isso dificulta a minha fluência. Sei também que a minha vontade de falar corretamente recrimina meus erros que recriminam a minha fala. Já me aconselharam a falar de uma maneira mais simples ou a pensar em francês. Que ótimo! Eu até que tento, mas isso, ainda, não é uma questão de escolha.

Uma vozinha dentro de mim me consola: "Calma, Carolina, isso tudo vai melhorar!" A partir do momento em que meus novos arquivos forem deixando de ser novos e passarem a ser mais usados, vou incorporar a língua francesa e todo o esforço que faço hoje será coisa do passado, mas fica aqui o seu registro.

Por que toda essa reflexão e esse desespero em aprender francês? Porque estudar francês era a minha primeira etapa aqui em Lyon. Tempo esgotado! Acabou a mamata! Segunda-feira, dia 6 de setembro, inicio a segunda etapa: começam minhas aulas de mestrado em Psicologia Cognitiva e volto a trabalhar, tudo isso em francês! Mas esses são outros assuntos...

(Leia também no blog: Aprendendo a Língua Francesa)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Em Amsterdam: proibida para menores

Amei! Mas confesso que foi um destino meio estranho para ir com minha mãe.


Amsterdam, a capital dos Países Baixos, é linda! Os canais que existem pela cidade a deixam muito charmosa.

É uma cidade que sofreu muito com a invasão alemã, durante a Segunda Guerra Mundial. Podemos visitar o Instituto Anne Frank. Para quem leu o livro, o Diário de Anne Frank, traduzido em mais de 60 idiomas, conhecer o pequeno sóton, onde ela viveu com mais 7 pessoas por quase dois anos, é revoltante! Podemos, de longe, imaginar o que os judeus sofreram para tentar sobreviver.

Centro mundial das bicicletas, dos 750 mil habitantes, 700 mil são ciclistas. Nunca vi nada parecido na minha vida! Dizem que 80 mil bicicletas são roubadas por ano e que 40 mil são resgatadas nos canais.


Amsterdam foi uma cidade portuária muito importante que recebia a visita constante de marinheiros que, quando chegavam em terra firme, queriam apenas três coisas: comer e beber. Para matar uma dessas fomes havia mulheres exercendo a profissão mais antiga do mundo.

O tempo passou, a importância do porto diminuiu. Contudo, o comércio sexual aumentou mais a sua popularidade, tornando-se uma indústria legalizada e diversificada (shows, cinemas e teatros eróticos, além do museu do sexo).


Há três bairros conhecidos como "Bairros Vermelhos", onde as luzes vermelhas indicam as muitas cabines de prostituição. As moçoilas exibem suas lingeries e vendem seus produtos. O produto mais basicão custa 50 euros e tem a duração de 15 à 29 minutos. Elas revezam suas cabines em três turnos de 8 horas. Dizem que há quem faça fortuna em um fim de semana, principalmente quando há jogo de futebol.

Como consegui essas informações? A resposta é uma dica: há 2 tours que o turista pode fazer à pé pela cidade, com guias que falam ou inglês ou espanhol.


Um dos tours é durante o dia, dura 3 horas e é tranquilo de levar a mãe. O outro é de noite e tem hora só para começar.











O guia, mais descontraído depois do pôr do sol, responde tuuuuudo o que você quer saber, basta perguntar. O roteiro é a night de Amsterdam: ele nos mostra onde ficam os lugares mais frequentados da cidade, incluindo os coffeeshops.

Aqui, mais uma particularidade da cidade: as drogas consideradas brandas, como álcool, tabaco, maconha e haxixe, são liberadas. É só entrar em um coffeeshop e ver um menu de "ervas" classificadas pelo sabor e efeito que elas causam. Mas, atenção! Pela cidade são espalhadas inúmeras câmeras de vigilância. Impossível entrar em um estabelecimento com boné ou óculos escuros.

Bom, não precisa nem dizer que a cidade é lotada de homens, né?!

Esta política liberal não agrada todo mundo, claro. Pelo contrário, causa muita insatisfação nos países vizinhos que vêem as drogas mais ou menos como o Brasil as vê. Por causa de pressões, principalmente da França, o governo fala em enrijecer a sua política. Umas das propostas seria a de que somente holandes, ou habitante dos Países Baixos tivessem acesso às drogas. Será?


Mas, Bicicletolândia é muito mais que esse submundo! Uma dica imperdível é o Museu Van Gogh, uma visita muito agradável onde podemos conhecer a vida e a grande maioria das obras desse artista.













Cidade das casas com escadas super inclinadas, foi em Amsterdam onde inventaram o pedágio, onde, pela primeira vez na Europa, foi possível um casamento entre homossexuais, onde se fabricam boas cervejas e de onde partiu a muda do nosso café. Está aí um ótimo destino de viagem, principalmente para quem tem muita energia e disposição para curtir o dia e a night.

Dizem que Amsterdam é um grande parque temático, só que proibido para menores. E quando estiver lá, não se esqueça: sorria! Você estará sendo filmado!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Adooooro visitas !

Por que eu adoro visitas?

Porque tenho o maior prazer em apresentar Lyon e receber os amigos na minha casa.











Porque, com as visitas, tenho histórias para lembrar de mais de 5, 10, 15, 20 anos atrás ou mais. Então, se sentir uma pré adolescente é fácil...



Porque com as visitas também descubro lugares novos e vivo novas aventuras, como na linda cidade de Annecy!










Porque passar mal, depois de andar meia hora de pedalinho, é muito melhor quando estamos ao lado dos amigos... Eles nos entendem e já nos viram em situação muito pior...

Porque quem mora fora de seu país sabe como tem dias nos quais a saudade aperta e como os rostos, as vozes, os papos, as brincadeiras familiares nos fazem bem.


Porque as pessoas que me visitam são pessoas muito importantes na minha vida.









Porque minhas visitas me lembram quencossô, onquotô e o quecotô fazendo aqui. Elas me abastecem de amor e seguem seu caminhos...

E que voltem sempre!


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

"À Moi" e a origem do Amar

Antes do começo, uma explicação: "à moi" é uma expressão francesa ( lemos: à muá) que significa, dentre outras coisas, o "é meu"em português.

Foi durante um jantar de terça feira que me veio a inspiração para este post. Há quase um mês não via a pequena Naïs. Estávamos com saudades e brincamos muito antes de nos sentarmos à mesa. Convidada à escolher o seu lugar, sentou-se entre mim e o Alex, claro. Então, ela me deu um abraço apertado. Que delícia! Apontando para mim, ela disse à sua mãe:
_Maman, ça est à moi!

#Tecla sap#
_ Mamãe, isto é meu.
Sua mãe respondeu imediatamente:
_Não Naïs, a gente não fala assim. A Carol não é sua. Você quer dizer que você a ama muito, mas ela não é sua.

Pronto! Lindo! Entre as duas primeiras garfadas de um inocente jantar, Naïs expressa o dilema do amar: tratar ou não o outro como um objeto que me pertence.


A mesma Naïs que tem pouco mais de 2 anos e que já corrige a minha pronúncia. Ela que começa a diferenciar o que é ela e o que é o outro. Ela que testa seus limites e os limites do outro o tempo todo. Ela que agora quer fazer tudo sozinha. A mesma Naïs que, há um mês, parou de usar fraldas...

Com essa história de parar de usar fraldas ela controla o batalhão de adultos ao seu redor. Um dia estávamos entrando na piscina e ela me disse:

_Xixi, Carol, rápido, xixi!
Então corri com ela para o banheiro. Ela sentou-se e... Nada. Então, ordenou:
_Agora você!
E como já estávamos lá mesmo, querendo dar exemplo, não parei para pensar na situação e obedeci. E foi aí que escutei as suas palavras quase num tom de ameaça:
_Carol, o padrinho não é seu. O padrinho é meu!

Nesse dia, fiquei sem resposta. Perdi o início daquilo que pode se tornar eterno. Pensei apenas na atitude pensada dela de me tirar do meio das outras pessoas, me chamar no cantão, me colocar na cadeirinha do pensamento e me dar uma bronca...

Todavia, sua mãe não foi tão tapada quanto eu e, no jantar, disse algo que todos deveríamos saber, a primeira lição do amor: "amar não é possuir".


Naïs me fez pensar na origem do amor: um sentimento que se aflora quando vivemos a plenitude do egocentrismo. Sua mãe o nomeia amor, mas para a pequena, o sentimento é de posse. Então, quando mesmo que aprendemos a separar o amor da possessão?


Você pode se dizer diferente de Naïs. Dizer que você ama a sua liberdade e que respeita a liberdade do outro. Tudo bem! Você ama o outro, mas ele pertence ao Universo? Ótimo! Contudo, que mal tem se esse outro se sente livre e quer ficar feliz ao seu lado? É ou não é, Naïs?

Sei lá... Penso que se ela aprendesse agora essa primeira lição do amor, talvez economizasse muitas lágrimas durante a vida, dinheiro em terapias e os ouvidos e ombros dos amigos. Entretanto, aprendendo essa lição, ela deixaria também de compreender os livros de romance, os filmes de amor e muitos poemas. Não compreenderia nunca as músicas sertanejas, ou melhor, a maioria das músicas brasileiras. Que sangue correria em suas veias artísticas?


Aiai... Queria dizer aqui que eu consigo fazer a total separação entre o amor e a possessão, e dar o exemplo para vocês, mas não posso mentir... E olha que a Vida insiste em me ensinar essa lição. Entretanto, depois que essa professora severa se acalma... Confesso que adoro cantar bem alto e com os olhos fechados os refrões mais melosos que existem. Talvez, eu prefira continuar burra, bebendo muita água para as lágrimas, trabalhando e ganhando dinheiro para as terapias... E viva MEUS amigos!

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